A PEIXARIA

A RAIA MIÚDA

EU NEM IA DIZER NADA, MAS…

Aparentemente graciosa na sua miudeza oceânica, a raia miúda é bicho rijo.

Gosta de estar no seu canto, transparente, e ondear pelas incoerências da vida sem ninguém dar por ela.

TUBARÃO OTELO

«O DRAMA, A TRAGÉDIA, O HORROR»

Um António Guerreiro que não aprendeu alemão aperta a mão a um Pedro Mexia sem amigos e, assim sendo, magro. A gota de suor baumaniana gerada pela fricção das duas peles dá espaço a que um tubarão disforme cresça a custo e à martelada.

Apontar vagarosamente para os cantos escuros do oceano e, num processo demorado e lúcido, explicar-vos a razão dos meus tormentos.

ESTURJOÃO

SE CÁ NEVASSE, FAZIA-SE CAVIAR

Teria gostado de começar este descrito com “Caviar é uma ova”, mas mentes mais iluminadas já cunharam esse maravilhoso trocadilho.

Assim, o Esturjoão continua a fazer o que pode, pleno de noção que uma opinião vale mais que as mil palavras que a compõe.

Tom de comunicação humorístico e q.b. satírico, próprio de um peixe com não um, mas quatro bigodes. Pensou terminar com “Hás-de caviar” mas essa também já está inventada. Et tu, Brute?

GANDA MARUCA

É PRECISO TER SANGUE NA GUELRA

Iscos há muitos, mas esta Maruca não morde qualquer um. Gosta de fazer o que lhe dá na real barbatana e tende a traçar a sua própria rota, mesmo que o cardume se deixe levar pela corrente.

Mergulha muitas vezes de cabeça, na maior parte delas por impulso, sem duvidar que há-de chegar a bom porto. Acredita que a humanidade ainda tem salvação, mas não se leva demasiado a sério. Afinal de contas, a vida é uma grande tonteria.

OSTRADAMUS

PÉROLAS A PARGOS

Sempre à espera do pior, mas almejando o melhor, Ostradamus imagina-se um poço de sabedoria.

Raramente sai da sua concha para arejar, mas quando o faz vê um mundo que lhe parece estranho. Isto solta-lhe a língua, que tanto fere como uma espada, como a seguir sara a ferida que infligiu.

GAROUPA DE IPANEMA

NÃO SOU A GISELE BÜNDCHEN, MAS PODIA SER

Só mais uma Garoupa a navegar as perigosas águas da vida, com uma obsessão pouco saudável por batom.

PERCEBES ESTRANGEIRO

ESPERANTO EM CADA CANTO

Quis a vida que no seu estado adulto o fixasse e o mantenha preso a uma rocha. Sonha migrar como o salmão que se adapta a águas doces ou salgadas pelo mundo infinito.

Todos os dias solta as suas amarras devagarinho para se tornar um Percebes viajante descobridor de novas rochas.

ZÉS-PA-DAR-TE

ESPADARTES. À MOLHADA.

Um conjunto de peixes que nadam em sentidos vários continua a ser um cardume? Estes peixes, sem rumo ou propósito, têm imensa vontade de nadar, e até de serem pescados. São estranhos estes espadartes.

O criador pôs todas as fichas no focinho alongado dos bichos e aos espadartes, não lhes apetece lutar.

JAQUINZINHA

NA MINHA MODESTA OPINIÃO…

Carapau em processo de crescimento, Jaquinzinha está ainda a aprender a ser um peixe dentro de água. Nem sempre sabe quando é que a maré enche, ou esvazia.

Entretanto, nada em frente, porque também não foi feita para aquários.

LAGOSTIM SAUDADE

CAMARÃO É A MÃE!

Flanêur dos Sete Mares, melancólico ma non troppo e diletante como um oitocentista perdido no século que ora engatinha. Levemente snob.

Irónico, sério ou sorumbático. Tudo de acordo com o estado de espírito de um crustáceo com a alma inqueta.

FILHO DA TRUTA

LÁGRIMA DE TRUTA, LÁGRIMA ENXUTA!

Tendo passado a sua infância e adolescência numa casa de trutas, na sua idade adulta nunca conseguiu quebrar o genitivo que o relaciona com a trutice.

Habituado à peixeirada e a puxar a brasa para se aquecer (roubando-a à sardinha), em bom trutês, nunca tartamudeando, quase sempre manda tudo e todos para a truta que os pariu.

RAFANECA

ASSINAR? EU NÃO ASSINO NADA.

Este peixe gosta de nadar pela imensidão das águas, que se querem forçosamente quentes, observando com espanto o que a rodeia. Discorre sobre assuntos mundanos (muitas vezes com duvidoso propósito), mas não vira a barbatana a temas profundos que lhe assaltam a mente.

Rafaneca aprecia companhia, contudo, de quando em vez, é assaltada por uma inquietude que a leva a procurar uma gruta e a aí se instalar, confortavelmente. De preferência, com uma manta.

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