Uma das minhas citações preferidas – confiando na tradução (Ed. da Gulbenkian, p. 178) – é de Immanuel Kant, na sua Crítica da Razão Pura:

«A carência de faculdade de julgar é propriamente aquilo que se designa por estupidez e para semelhante enfermidade não há remédio.»

Se, falaciosamente, usei o nome de Kant e de sua obra magistral – em jeitos de argumentum ad verecundiam –, doravante, essa associação é para esquecer: não abordarei o assunto de forma (conscientemente) kantiana ou a partir das definições filosóficas dos conceitos envolvidos: limitar-me-ei a recorrer a miscelâneas de associações do senso comum, apimentando com um ou outro grão mais exótico. Ou seja: concordem ou não, não me venham chatear com o Kant!

Tomemos por faculdade de julgar simplesmente a capacidade de tecer juízos, por exemplo: isto é bonito ou é feio, justo ou injusto, caro ou barato, etc.; ou seja, não a adjectivação (por si só). Então, o estúpido é aquele em que esse processo é deficiente; a partir de um mau funcionamento reflexivo, define causas injustas como justas, coisas bonitas como feias, e por aí adiante. Todavia, há que não esquecer que esse processo é influenciado e tem origem no contexto: o mar no qual navega define as decisões e actuações do marujo. Assim, um indivíduo muito rico facilmente acha ser em conta pagar quinhentas unidades de moeda europeia por um par de meias – o resto da população mundial, do paupérrimo ao mais ou menos rico, achará essa transacção uma grandessíssima estupidez.

Ora, é na segunda parte da citação que me debruçarei mais afincadamente. A maior insalubridade é assumir à partida que não existe, nem existirá, medicina poderosa o suficiente para resolver este tipo de doenças – atente-se ao plural, e passemos a uma deambulação entre o geral e o particular. Não existe apenas uma enfermidade com os mesmos sintomas – dos idiotas aos parvos, dos burros aos cromos, dos tolos aos estúpidos a intensidade e perigo de contágio variam. E se, em minha humilde opinião, tendo a acreditar que no geral a humanidade nunca deixará de ser imbecil, julgo que uma ou outra anta pode encontrar solução para a sua condição: estulto uma vez não significa estulto sempre e para sempre.

Em boa verdade, que aqui no meu cortiço sou eu dono dela, a estupidez mede-se pela ignorância: a falta de armas para combater na guerra (que é a vida) dificulta o engendramento de estratégias e leva a escolhas que conduzem ao estropiamento ou morte.

Quando um ignóbil tem a epifania de se instruir, começa a ir contra a sua obtusidade. Na fase de convalescença ainda se assemelha a um asno na forma, porém o seu conteúdo vai enriquecendo. Sendo a cura total impossível, o quase ex-néscio chega a um ponto em que já consegue fundamentar os juízos que profere, e, conquanto menos assertivo, passa a mais certeiro (diferença entre opinião e conhecimento fundamentado, doxa e epistème, sofistica e filosofia, retórica e dialéctica).

Recuando para melhor saltar: num bando reconhecido como de parvalhões, não significa que não haja um ou outro cuja parvoíce não seja adquirida apenas por osmose; retirando esse asinino volátil do meio da manada, talvez ele consiga demonstrar resiliência; isto é, dependendo do contexto o grau de estupidez do indivíduo varia.

Dado o pulo que queria, concluo que talvez seja mais fácil mudar o contexto com o desiderato de curar a estupidez da humanidade, do que tentar curar lerdos, um a um. [Entre colchetes, onde ninguém nos ouve, diga-se que não existe nada mais estúpido do que o contexto – porém, é um círculo vicioso…] Cada tipo de bronco tem a sua idiossincrasia associada às contingências do seu desenvolvimento. Assim, cabe aos menos estúpidos (ou que se acreditam como tal) trabalharem por um ambiente melhor, onde os asnos possam pascer para se curarem e colaborarem na manutenção desse lugar utópico (nenhures).

Resta perguntar qual a pedra-de-toque pela qual se mede a estupidez? Eu diria, com uma inclinação (estupidamente?) empírica: as calamidades que na prática se observam e nos atingem.

Principiei com uma citação, e, ciente do perigo de ricochete, remato com outra de outras lides que, através de mim, ganha tom de alerta:

«I used to think she was quite intelligent, in my stupidity. The reason I did was because she knew quite a lot about the theater and plays and literature and all that stuff. If somebody knows quite a lot about those things, it takes you quite a while to find whether they’re really stupid or not. » J. D. Salinger em The Catcher in the Rye.

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