Abril é aquele mês que vai de fugida à procura de dias melhores – os Maios, os Junhos e os Julhos da alegria solarenga. Abril acaba por ser um mês de transitoriedade, de espera nostálgica e ansiosa pela acalmia que vem depois das mil águas. Por isso, mais do que trazer novidades, que as há, optámos por companhias antigas e reconfortantes que nos fazem lembrar de melhores dias e viajar sem arredar o pé do ainda-tão-necessário calor das malhas. Eis as sugestões para Abril, do Carapau de Corrida para os queridos desse lado:

Um livro: Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi

 

livro afirma pereira carapau de corrida sugestões para abrilAfirma Pereira (1994), ou no seu original Sostiene Pereira, é um livro do falecido Antonio Tabucchi, passado em Lisboa durante a ditadura salazarista. Adivinha-se que este autor italiano só podia conhecer bem Portugal (e conhecia) para retratar um momento histórico com uma personagem principal – Pereira, está visto – tão portuguesa, tão próxima de todos nós.

De facto, deu de caras com a obra de Fernando Pessoa quando estudava na Sorbonne e decidiu que haveria de estudar português. Foi o início de uma longa história com o país onde veio a viver e morrer.

Afirma Pereira conta-nos a história de um homem pacato, alheio, de certo modo, à realidade que o cercava. Enquanto escreve as suas peças culturais para a coluna de um jornal lisboeta conhece um italiano que o vai levar a arriscar além do que deve.

 

Razões para ler:

  • Toda a narrativa é escrita como se de um relato indirecto se tratasse. Posto isto, a dúvida persiste: trata-se de um relatório credível, ou será, talvez, possível duvidar de onde vem e quem o escreveu?
  • Antonio Tabucchi é um escritor muito bom. Vale a pena este livro ou qualquer outro.
  • É uma leitura leve de um tema pesado. Começa-se tão alegremente que nem antecipamos o surgir da angústia.

 

Um filme: Trumbo, de Jay Roach

Façamos uma pausa dos filmes oscarianos de 2018 e voltemos atrás, ao ano em que Bryan Cranston deu vida a Dalton Trumbo, um famoso argumentista de Hollywood que viu a sua carreira ameaçada pelos seus ideais comunistas. Impedido de escrever, fê-lo ainda assim, debaixo do nariz de todos sem que se apercebessem.

De um humor ímpar, Trumbo voltou para relembrar o argumentista que escrevia na banheira e a lição que pregou aos homens do seu tempo, garantindo uma imortalidade que a censura não foi capaz de conter.

Trumbo (2015) teve Bryan Cranston nomeado para os Óscares na categoria de Melhor Actor Principal, tendo perdido para a performance de Leonardo DiCaprio em The Revenant, como aliás todos nos lembramos.

 

 

Razões para ver:

  • Se havia dúvidas do brilhantismo de um Bryan Cranston pós-Breaking Bad, Trumbo mostra-nos que não há margem para preocupações. A carreira deste senhor é para seguir!
  • Há filmes, realizadores e actores que ficam para a história. Não tão certo é que venhamos a lembrar-nos dos produtores e directores de arte, dos designers de moda e de homens como Trumbo, argumentistas. Este filme deve lembrar-nos dos contadores de histórias, maioritariamente anónimos, que nos têm vindo a entreter ano após ano.
  • A gargalhada. Se querem ver um filme divertido, apesar de a temática ser mais carregada do que o humor nos deixa perceber, Trumbo é uma grande aposta!

 

Um álbum (para ouvir em loop até ao 23 de Abril): The Suburbs, de Arcade Fire

Aproximando-se o há muito esperado concerto “a solo” de Arcade Fire, começa a febre de antecipar as músicas que podemos vir a ouvir no Campo Pequeno. É difícil escolher um álbum, especialmente porque são tão diferentes e, ainda assim, todos eles tão Arcade Fire. A escolha faz parte e, porque em Abril sonhamos com o devir e relembramos os verões passados, nada como um The Suburbs para nos levar de volta ao calor da juventude. Se ainda não viram, aconselhamo-vos a ir a Paredes de Coura, já que para o concerto de Abril os bilhetes esgotaram há muito, logo na primeira semana.

É um concerto imperdível, que se pode ver e rever sem nunca sentir o receio da desilusão. A energia é contagiante e só não saltamos para o palco para dançar com a Régine Chassagne porque não podemos. Dança-se, ainda assim, tanto quanto se pode num qualquer canto onde a música nos chegue.

Razões para ouvir:

  • The Suburbs é um álbum que nos faz oscilar entre vários estados de alma, vários ritmos, numa agradável e consistente viagem que se afirmou como um ponto de viragem dos Arcade Fire face aos álbuns anteriores.
  • Não há nada tão bom como reverberar ao som de Ready to start e sentir que somos invencíveis, nem que seja durante os 4 minutos e 16 segundos da música.
  • Num concerto ou em casa de pijama, todas as ocasiões são boas para dançar ao som de Sprawl II. 
  • As melodias sempre murmuradas que em The Suburbs persistem são uma das razões que tornam os concertos de Arcade Fire singulars. Nada tão maravilhoso como o entoar conjunto de centenas de pessoas das melodias que nos ficam no ouvido.

 

 

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