Eu lembro-me,

que as coisas podiam ser muito, pouco, ou nada importantes. Hoje, as coisas deixaram de ser importantes. São relevantes ou irrelevantes. Há até quem encontre coisas relevantíssimas. Não é que antes não conhecêssemos relevante. Mas tínhamos-lhe respeito. Era alto, grande e soberbo. Usávamo-lo com parcimónia, olhando para o infinito, para dar ao momento, a sacralidade exigida. Relevante era aquele primo que é visiting scholar em Berkeley e só vem a casa pelo Natal.

– Senta-te na poltrona primo, por favor. Era o que faltava.

Relevante. Dali não se passava. Era o cume da montanha, o clímax da classificação. Uma coisa que se elevava acima das outras.

Entretanto, importante adquiriu a importância de um diplomata russo em espaço de influência NATO. Escorraçado o importante, não há nada, nos dias que correm, que não seja relevante. As ideias, as opiniões, os temas, as matérias, os factos, a informação, as pessoas, os sectores, as contribuições, os países, e o que eu comi ao pequeno-almoço. Granola.

Relevante, vai hoje tendo mais uso que a Stormy Daniels.

O que chateia. Ninguém gosta de ver o primo visiting scholar em Berkeley prostituído.

 

 

Eu lembro-me,

que a excelência era uma ideia, um desejo, uma excepção, a perfeição.

– Ou o início de uma carta dirigida ao chefe de repartição de finanças.

Também.

A excelência era frágil, delicada e quimérica. Meticulosamente guardada para o horizonte, junto com o serviço da Vista Alegre da minha tia Albina.

– É para uma ocasião especial.

A excelência. A excelência cerca-nos ao ritmo de um colonato judaico na Cisjordânia. Está nas actividades, nos desempenhos, nas experiências, nas medidas, nas políticas e no menu que me serviram ao almoço. Sopa de verduras, arroz integral, patacón e tofú em banho de maracujá. Estou rodeado de vegetarianos. Não sei o que é um bife há 3 semanas.

Não há entidade ou organismo que não pratique a excelência ao ritmo com que o Novo Banco perde dinheiro. Antes, a excelência guardava-se até ao primo que é visiting scholar em Berkeley, vir jantar lá a casa.

O que chateia. Ninguém gosta de ver o primo visiting scholar em Berkeley desconsiderado.

 

 

Eu lembro-me,

quando o meu pai decompôs o acrónimo ADN.

– Ácido desoxirribonucleico.

– Chuuuupaaaa. Teria dito o meu pai, se tivesse 11 anos e andasse na preparatória de Paranhos, em 1991.

ADN. Era um termo requintado, técnico, da biologia. A rapaziada das ciências sociais usava-o para impressionar os amigos. Junto com a foto daquela prima boazona que fingíamos namorar.

– Estás-te a armar.

E estava.

Hoje, o ADN está quase tão presente nas nossas vidas como a Bayer. Está nas empresas, nos clubes, nos partidos, nas entidades, organismos e países. E no miserável arroz que eu fiz para o jantar. Com feijão. E bacon.

Antes tínhamos ideias, percepções, opiniões, práticas, hábitos, costumes, comportamentos e formas de estar. Hoje temos ADN. Os cientistas sociais foram goleados pelos biólogos.

O ADN era aquele termo que só o nosso primo visiting scholar em Berkeley podia usar.

O que chateia. Ninguém gosta de ver o primo visiting scholar em Berkeley desprestigiado.

 

 

Eu lembro-me,

que havia coisas que eram agradáveis. Outras eram só razoáveis. Havia coisas que eram interessantes. Algumas eram surpreendentes. Outras eram só razoáveis. Havia coisas intensas e outras que eram confortáveis. Assustadoras e violentas.

Excepcionalmente, podiam ser incríveis, tremendas ou extraordinárias.

– Sagrado só o FCP.

Havia coisas fascinantes, admiráveis, grandiosas.

– Extensas e intermináveis.

Certo.

Entretanto, só há brutal. Brutais eram os punhos do Cipriano. O Cipriano andava no colégio António Nobre, a um bom quilómetro de Paranhos, e o nome dele era sussurrado.

Brutal. Os 157 filmes em exibição, em território luso, são brutais, os 44 435 concertos previstos para este ano, são brutais, as 3050 exposições visitadas pelos indígenas são, é verdade, brutais e as 57 obras de teatro apresentadas, até à data, no burgo, são, pasme-se, brutais. Brutal, atingiu-nos com a delicadeza de um Connor Macgregor. Ou do Cipriano.

Percebe-se. Mas chateia. Ninguém gosta de ver o primo visiting scholar em Berkeley espancado.

 

 

Eu lembro-me de tudo isto, o que só pode querer que estou velho.

– Recordar é viver.

Dizia um primo meu, visiting scholar em Berkeley.

 

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