Aviso! Se não viram o filme e têm prurido a spoilers, estão por vossa própria conta e risco.

Continuação de Parte 1 e Parte 2

Make Wakanda Great Again

Wakanda, nas suas várias vertentes, é a realização, apesar de fictícia, das esperanças de várias gerações de afro-americanos — um país não colonizado, soberano e protetor do seu estilo de vida. Esta é uma nação africana que conseguiu garantir para si o usufruto do seu maior recurso natural, uma crítica pouco disfarçada à forma como o ocidente explora as matérias-primas africanas (vibranium a ser trocado por diamantes, ninguém?). Olhando, contudo, num outro ângulo, é também um país que defende o isolacionismo, o nacionalismo, que não aceita imigrantes e que se recusa a partilhar os seus avanços tecnológicos. Ironicamente, será Wakanda o «sonho molhado» de Donald Trump? Ugh (arrepios).

A máquina promocional de Pantera Negra foi suficientemente forte para que o filme saísse ileso dos ataques da extrema-direita americana nos media — circulação de notícias falsas de brancos atacados em idas ao cinema por grupos de marginais negros ou comentários negativos no site Rotten Tomatoes (bloqueados pelo próprio). Não impossibilitou, no entanto, que esta maltinha desse a volta e distorcesse a narrativa do filme, reclamando-a para si. Por exemplo, as «mentes iluminadas» do site de notícias de extrema-direita Breitbart tentaram reduzir a simbologia do filme a um confronto entre Trump (o herói?) e o movimento Black Lives Matter (Killmonger). (Suspiro.) Nada para ver aqui. Apenas uma demonstração prática da atitude «se não os podes vencer, junta-te a eles».

 

 

Wakanda (sim, eu sei que não é um país a sério, mas será que todos os americanos estão comigo nisto?) tem uma estratégia de política externa baseada no realismo defensivo. Durante gerações, foi passada uma imagem de que esta seria uma nação inócua, um «país de agricultores». Esta foi a forma encontrada para resolver o dilema de segurança que se impõe quando incertezas são levantadas por outros países quanto às intenções do uso, obtenção ou desenvolvimento de armas: a necessidade deve-se a motivos defensivos ou bélicos? Países que usam relações diplomáticas e económicas para construírem a sua política externa são menos temidos e, logo, têm uma menor probabilidade de entrarem em conflitos armados. Desprezando esta teoria, e de forma a manter a charada, Wakanda esconde os depósitos de vibranium e isola-se do mundo. Mas, ao encobrir a sua supremacia militar, e pondo os interesses nacionais em primeiro plano, ignoraram continuamente injustiças fora de fronteiras — uma decisão eticamente condenável, que no fim plantou divisões internas.

O isolacionismo é impossível de concretizar num mundo socialmente injusto, porque enquanto houver opressão há instabilidade, e mais cedo ou mais tarde os «sarilhos» batem à porta. Killmonger é a personificação do que acontece quando nada é feito, mesmo quando as intenções são (razoavelmente) boas — «Two billion people all over the world who look like us, whose lives are much harder, and Wakanda has the tools to liberate them all. Where was Wakanda?».

 

 Erik Killmonger. Vilão ou Anti-Herói?

1992, Oakland, California. É assim que Pantera Negra abre. Para uma audiência distraída o significado da data e local serão provavelmente nulos. Já um fã de BD comentaria que o filme não respeita a história original — o reduto dos wakandianos nos EUA é em Harlem, Nova Iorque. Para quem segue Ryan Coogler, realizador e co-argumentista, percebe que a presença de Oakland não é acidental. Esta não é apenas a cidade onde nasceu e o cenário do seu primeiro trabalho, Fruitvale Station (2013), um filme aclamado no Festival de Sundance sobre o último dia de Oscar Grant. É também o local em que, algumas semanas antes da criação do próprio super-herói, em 1966, foi fundado o Partido dos Panteras Negras, como resposta à brutalidade da polícia da cidade. A escolha do ano de 1992 também não é inocente. Em abril, mais a sul, as ruas de Los Angeles estavam a ferro e fogo. Motins brotaram por toda a cidade após a absolvição tanto dos polícias que agrediram violentamente o taxista Rodney King, como de Soon Ja Du, uma lojista coreana que baleou fatalmente a adolescente Latasha Harlins (ambos os crimes registados em vídeo). [Se tiverem interesse, sugiro os documentários Let It Fall (2017) de John Ridley e LA 92 (2017) produzido pela National Geographic]. 

É nesta primeira cena, na discussão entre os irmãos T’Chaka (pai de T’Challa) e N’Jobu (um espião wakandiano nos EUA), rodeados por todos estes elementos simbólicos, que o tema central do filme é servido: como deverá o Homem negro responder à exploração, sabotagem e sofrimento dos seus? Esta tensão ideológica informa posteriormente o antagonismo entre T’Challa e Killmonger — diplomacia vs. radicalismo, pacifismo vs. violência, Martin Luther King vs. Malcom X.   

A frase de James Baldwin «To be a Negro in this country and to be relatively conscious is to be in a state of rage almost all the time» resume perfeitamente o sentimento explícito por Killmonger. Tal como o pai, N’Jobu, o antagonista do filme cresce a acreditar que o recurso às armas e a fundação de uma hegemonia negra («um império em que o sol nunca se pusesse») é a solução para libertar a diáspora africana da supremacia branca, em vez de promover, sei lá, a democracia… Mas se Killmonger é um homem com um plano, já T’Challa é um líder hesitante. «T’Challa was born with a vibranium spoon in his mouth» refere Chadwick Boseman (o actor que interpreta o protagonista) na campanha de promoção do filme. Pela primeira vez, o novo rei é confrontado com os seu próprio privilégio, tanto pela descoberta do «primo perdido», como pelos apelos de Nakia para abrir Wakanda ao mundo.

No seu percurso enquanto mercenário, Killmonger aprende com o «colonizador» a destituir governos a favor dos interesses políticos e/ou económicos do ocidente, particularmente em alturas críticas para a liderança desses países (Wakanda está a viver um momento de sucesssão); uma crítica à forma como as fronteiras africanas têm sido redesenhadas desde o início do colonialismo, mas também um afastamento inteligente da ideia de que o caráter violento da personagem foi interiorizado por ter crescido num ghetto.

Numa peça para o The New York Times, Boseman refere: «For me, [Killmonger e T’Challa] are two sides of the same coin — African and African-American. As an African-American, if you’re disconnected from your ancestry and your past, you have this conflict that comes from that and so there is a healing experience that is possible because of that ». No mesmo artigo, Coogler aponta: «The fracture that Killmonger has, that’s the fracture I lived with my whole life. I’m from a place that I’d never been to and that nobody who I loved had been to because they couldn’t afford to go [to Africa. Mr. Coogler grew up in Richmond in Northern California]. So I would hear stories from them about this place that they didn’t even know anything about, and those stories were a counterbalance to the awful things that we did hear about them». As duas personagens principais estabelecem a ponte entre continentes ao criarem a ocasião para explorar o vínculo entre a África contemporânea e os EUA de hoje, evocando no processo a sensação de abandono da diáspora africana. É a primeira vez, depois da série Roots (com duas versões, uma em 1977 e outra em 2016), que uma produção desta envergadura explora tão abertamente tal tema. O escravismo destituiu gerações da sua história oral, religião, língua, deixando um «vazio» na identidade cultural destas. (Quando Killmonger visita o «plano ancestral» só N’Jobu está lá para o receber.) Coogler e Boseman fizeram viagens a África em busca das suas raízes. O último fez mesmo um teste genético para descobrir de onde especificamente estes eram.

No fim, quando lhe é dada a possibilidade de sobreviver, Killmonger escolhe a morte. Antes desse momento, o actor Michael B. Jordan profere uma das deixas mais emotivas do filme: «my ancestors that jumped from the ships, because they knew death was better than bondage». Apesar do vilão (ou será anti-herói?) não sobreviver, é ele o vencedor da discussão. Wakanda e o seu líder são obrigados a assumir um papel participativo na política global, mostrando o fracasso de uma posição isolacionista (o crítico do Breitbart deve ter adormecido durante a batalha final).

 

 Rei Lamar conhece Rei T’Challa

Chegámos à última camada da cebola: a música do filme. A celebração de Pantera Negra enquanto acontecimento cultural passou pelo lançamento de duas bandas-sonoras: uma instrumental composta por Ludwig Göransson (produtor de Haim, Childish Gambino, Chance The Rapper) e um sortido de temas com curadoria de Kendrick Lamar chamada de «Black Panther:The Album».

O produtor sueco Göransson colabora com Coogler desde as curtas-metragens dos tempos de faculdade (ambos frequentaram a Universidade do Sul da Califórnia). A familiaridade entre os dois é tanta, que sempre que o realizador finaliza o primeiro rascunho de um argumento envia-o para o compositor, dando-lhe uma maior margem para desenvolver o seu processo criativo. Quando Coogler o convidou para participar na banda-sonora de Pantera Negra, Göransson sentiu a pesada responsabilidade em prestar uma homenagem devida à cultura africana. De forma a honrar este compromisso, viajou pelo Senegal e África do Sul, recolhendo sons, acompanhando Baaba Maal em digressão, gravando com artistas locais durante semanas e fazendo pesquisa na fabulosa coleção da International Library of African Music em Grahamstown.

Já agora, Göransson também produziu o álbum-sensação «Awaken, My Love!» de Childish Gambino A.K.A Donald Glover. Estes conheceram-se quando o produtor trabalhava na banda-sonora da série Community, da qual Glover fazia parte do elenco. Não sabemos se Göransson é achado nesta história, mas Donald e o irmão Stephen ajudaram Ryan Coogler e Joe Robert Cole a darem dimensão a Shuri (não é por acaso que a miúda tem tanta piada).

 

 

O casamento da música de Kendrick Lamar com um filme de Ryan Coogler faz todo o sentido — ambos são californianos (Kendrick de Compton e Coogler de Oakland), e ambos são contadores de histórias exímios com um profundo interesse pela experiência afro-americana. Um recorre a rimas e batidas, o outro usa a linguagem cinematográfica. Para concretizar esta colaboração, Lamar chegou com snacks à sala de edição e ficou por lá durante uma semana a absorver a história e a banda-sonora de Göransson. Este por sua vez juntou-se em estúdio ao rapper e ao produtor Sounwave, permitindo que os apontamentos sonoros das composições fluíssem nos temas de «Black Panther:The Album». Ao longo de 14 canções, que seguem tematicamente a cronologia da narrativa, desfilam colaboradores familiares, como Zacari, SZA, Vince Staples ou ScHoolboy Q, novas promessas, como Jorja Smith, Khalid ou SOB x RBE, e artistas sul-africanos como Sjava (que canta em Zulu em Seasons) e Babes Wodumo. Em todos, Kendrick deixa a sua marca, nem que seja através do comentário social, feito desta vez usando à vez a perspetiva de T’Challa ou a de Killmonger. «Black Panther:The Album» é a obra perfeito para suceder ao aclamado DAMN (2017) — é Kendrick sem o ser totalmente.

 

 

Bónus  Nerdist apresenta Young King 

 

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