Alguém teve a honra de ver Bovie em Njujork? Talvez não, mas acredito que já ouviu os Bitls, afinal a banda de Paul, John, George e Ringo é para muitos a mais marcante do mundo. Agora já sabem de quem estou falando, não é? Vou acabar com este tolo mistério. Bovie é a grafia usada na Sérvia para Bowie e Njujork é New York, a mais perfeita tradução de megalópole deste pobre planeta em apuros pela possível disputa entre os meninos Kim e Trump e com pouca esperança no futuro.

A Sérvia, meus amigos, tem a particularidade de escrever os nomes estrangeiros de acordo com a pronúncia. Assim, Jack é Đjek,Charles é Ćarlis e Carapau de Corrida é Karapau de Kohida! Digam lá se isto não tem a sua piada ou, como se diz em Cascais, o seu caché? Mas esta não é a única particularidade deste povo e já volto ao tema porque antes é preciso narrar em poucas linhas a aventura que foi chegar ao meu destino.

Digo-vos que não é fácil chegar a Belgrado. O viajante que ora vos digita já foi, e voltou, via Zurique, Genebra, Frankfurt e Budapeste, pois não existe voo direto de Portugal para a Sérvia (atenção, TAP). Desta última vez, assim como na anterior, vim por Budapeste e depois de três horas e meia de voo entre o Porto e a capital húngara, mais quatro horitas numa carrinha que apanha o passageiro no aeroporto e o entrega na porta do destino em Belgrado por módicos 25€, e dessa última vez a viagem foi especial.

Primeiro porque chovia bastante na Hungria e Goran, o motorista, dirigia como se estivesse em pista seca e a carrinha fosse um bólido de linhas arrojadas. Como se não bastasse a velocidade excessiva, o computador de bordo indicava que a pressão dos pneus não estava boa, mas nada abalava o bom Goran, nem acalmava este pobre peixe que já pensava em apelar à Fátima ou à Nossa Senhora de Medjugorje, da vizinha Croácia que, por estar pelos arredores podia ouvir melhor as mal ditas preces deste pecador.

Na mesma carrinha viajaram dois portugueses de Coimbra e passámos a conversar alegremente na língua do Tony Carreira quando os outros viajantes foram depachados em Novi Sad, cidade ao norte de Belgrado. Foram duas horas em que armei-me em embaixador informal da Sérvia dando aos rapazes dicas de restaurantes (uma delas errada, penitencio-me), saudações em sérvio e orientações diversas. Os jovens patrícios iam, entre outras coisas, assistir ao derby Estrela Vermelha vs. Partizan naquele mesmo dia e eu tive mais esse exemplo do fascínio que uma bola disputada por 22 gajos proporciona ao ser humano, ainda que o jogo tenha terminado em pancadaria. A minha preocupação para com meus companheiros de viagem foi amenizada pela habitual simpatia dos sérvios, especialmente porque o Cristiano Ronaldo é nosso e pode ter sido um salvo conduto eficaz para a segurança dos rapazes de Coimbra.

Voltando aos eslavos do sul, não vou especular razões para o contraste da simpatia sérvia em relação aos maus bofes húngaros, mas o fato é que eles sorriem quando depois de um dobar dan (boa tarde) ou dobro veče (boa noite) perguntamos se o interlocutor fala inglês. Encontrar uma pessoa mais… vá lá, madura, que domine o idioma falado na ilha da Isabel II é um bilhete premiado, mas entre os jovens a comunicação é facílima e os sorrisos, fartos.

Os sérvios têm as suas curiosidades como qualquer outro povo, mas uma me chama muito a atenção. Eles acreditam que a lua cheia provoca insónia e eu fiquei aqui pensando se ia ser atacado no meio da noite por uma criatura peluda e com enormes caninos – cartas à redação para quem souber o feminino de lobisomem. Eu que durmo pessimamente ouvi essa explicação e retruquei mal-humorado que não era um gesto bonito debochar de tão triste maleita, ao que a rapariga que me faz cruzar os céus da Europa e as terras mais ao leste respondeu muito séria que isso é verdade e que toda a gente sabe que a lua cheia perturba o sono humano. Eu que acredito na ciência vou perguntar ao meu médico de família se esta afirmação procede ou se é lenda porque não creio que as normas de segurança europeias permitam o embarque de um passageiro com balas de prata para a segurança contra monstros que, julgo, façam parte do folclore. Desamparado, não dormi, como dizia meu avô, com um olho no burro e outro no cigano.

Belgrado tem cafés incríveis e para todos os gostos e um deles – o Kultura Bar – agradou-me em todos os sentidos. Eu sou um lagostim um pouco entradote, mas gosto de conversar com gente de cabeça fresca e jovens em geral, e passei algumas horas conversando e observando a juventude local regado à boa bebida servida na casa. Uma conversa em especial deixou-me de certa forma perturbado: os jovens sérvios não têm grande esperança no futuro e muitos pensam em deixar o país à procura de vida melhor e longe do totalitarismo disfarçado que por lá grassa.

Salários baixos, poucas perspetivas, um passado doloroso ainda muito fresco na memória coletiva, especialmente entre aqueles que estão na casa dos trinta, são alguns dos fatores para o pessimismo entre gente que devia estar no mínimo confiante em dias melhores. É facto que o custo de vida na Sérvia é baixo, mas isso não basta para quem supostamente deveria alimentar sonhos de um futuro promissor como acontecia com as gerações passadas.

Ainda que exista uma mágoa bem viva em relação aos americanos, especialmente a Bill Clinton porque ordenou o bombardeio de Belgrado na década de 1990, alguns pensam em viver nos EUA, o país que não está nada disposto a receber estrangeiros como outrora, quando acolheu tanta gente de tantas nacionalidades. Curioso para um falante de português é que a palavra sérvia que traduz a nossa “esperança” tem quatro letras apenas. Uma a mais do que Kim e uma a menos do que Trump. A palavra, amigos, é nada.

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