Aviso! Se não viram o filme e têm prurido a spoilers, estão por vossa própria conta e risco.

Continuação da Parte 1

DIVERSIDADE. HOLLYWOOD MANDA PERGUNTAR «O QUE É ISSO?». PANTERA NEGRA DÁ O RECADO.

Talvez um dos maiores problemas quando se discute diversidade em filme seja nós, a audiência, não termos uma noção dos números que descrevem este problema, assim como é feito num qualquer telejornal para a criminalidade ou um surto epidémico. Assim, deixo-vos uma descrição digna de teleponto.

Quase sempre que o futuro é abordado no mundo cinematográfico hollywoodesco é usada a perspetiva do homem branco — por exemplo, apenas 8 dos 100 filmes de ficção científica ou fantasia que mais dinheiro fizeram até ao momento têm protagonistas não brancos, e em metade dos casos esse protagonista foi Will Smith (Hancock, I am Legend, Independence Day, Man in Black). O desequilíbrio entre a diversidade étnica de uma população 40 % dos estadunidenses pertencem a uma minoria, uma percentagem que sobe 0,5 % todos os anos e a representação da mesma nos media é tão evidente que ninguém deveria estranhar que um filme como Pantera Negra despertasse tamanha euforia.

Desde 2014, que a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) publica um relatório anual sobre diversidade na indústria do entretenimento de Hollywood, que apesar de apontar para uma tendência no sentido de uma maior diversidade, revelou que os filmes e programas televisivos de 2015-2016 continuaram a ter uma representação desproporcionalmente desfavorável de pessoas não brancas e do género feminino. Ironicamente, o mesmo estudo indica que a audiência, que é continuamente mais diversificada (as minorias representaram uma fatia superior do número de bilhetes vendidos em 5 dos 10 maiores filmes de 2016), prefere filmes e conteúdos televisivos com uma representação mais heterogénea: produções com elencos compostos por minorias entre 21 a 30 % obtiveram maiores receitas de bilheteira a nível global e uma mediana superior dos retornos de investimento. As estatísticas são também pouco favorecedoras no departamento da representação no feminino: dados do mesmo estudo indicam que apenas 31,2 % dos filmes têm protagonistas femininos, assim como 6,9 % dos realizadores e 13,8 % dos argumentistas são mulheres. (PESSOAL, SOMOS APROXIMADAMENTE METADE DA POPULAÇÃO!)

Durante todo o sempre, os executivos têm resistido à mudança, refugiando-se na falácia de que filmes cujos elencos principais são compostos por minorias ou com mulheres protagonistas não serão bem recebidos por audiências internacionais, desvalorizando casos óbvios de sucesso. Sendo assim, parece que 2017 foi salpicado por estas anomalias: Get Out ($255 milhões de lucro com um orçamento de $4,5 milhões), Wonder Woman ($821,8 milhões na bilheteira internacional, Superman vs. Batman fez apenas $50) ou Girls Trip ($140 milhões com um orçamento de $19 milhões).

Bater recordes de bilheteiras a fazer a coisa certa

No momento em que vos escrevo este artigo, Pantera Negra atingiu a impressionante receita de $909,8 milhões internacionalmente, sendo já o 9.º filme mais lucrativo de sempre (e estamos ainda no 19.º dia após a estreia).

Pantera Negra é o resultado da adoção de um imperativo de inclusão pela Disney (detentora dos estúdios Marvel) em todos os seus projetos. Mudanças na política da companhia começaram a ser visíveis a partir de 2016 com Moana, a primeira princesa da Polinésia, e continuaram com as contratações de Taika Waititi para a realização de Thor Ragnarok, de Ryan Coogler para Pantera Negra (produzido pelo executivo Nate Moore) e de Ava DuVernay para a adaptação de A Wrinkle in Time. A Disney percebeu e aplicou algo fundamental: não basta criar projetos com histórias diversificadas e inclusivas, é essencial integrar nas equipas argumentistas, realizadores e produtores que acrescentem nuance e perspetiva. Sem Coogler e Moore não seria possível a génese do vilão Erik Killmonger — uma personagem que espelha a experiência afro-americana e o sentimento de nostalgia da diáspora africana em relação ao continente, para além de muito provavelmente ser, até ao momento, o antagonista mais complexo do universo Marvel.

Pantera Negra centra a sua narrativa num elenco pan-africano negro — para além de atores afro-americanos, foi selecionada uma miscelânea de nacionalidades, como Lupita Nyong’o (Nakia) do Quénia, Letitia Wright (Shuri) da Guiana, Winston Duke (M’Baku) de Trindade e Tobago, Danai Gurira (Okoye) de descendência zimbabuana. A especificidade dos traços incluídos na construção das personagens, quer no que concerne à caracterização (guarda-roupa, cabelos, maquilhagem), quer aos sotaques, sugerem Wakanda como uma «nação-berço» que influencia todas as outras — o sotaque de M’Baku é nigeriano, Nakia rouba a cadência queniana de Nyong’o, Boseman (T’Challa) socorreu-se do xhosa (uma das línguas oficiais da África do Sul, caracterizada pela presença de sons de «cliques»), acrescentando a musicalidade de Nelson Mandela. Esta heterogeneidade de características específicas de todo o continente, sem diluições, dá ao filme a autenticidade que permite fazer a ponte com uma audiência do continente africano, frequentemente retratada de forma ignorante, bem como ir ao encontro do tema principal do filme: a busca de raízes. Nunca ressoaria desta forma se as personagens tivessem um sotaque americano ou britânico, o que foi considerado pelos estúdios quando T’Challa foi apresentada em «Capitão América: Guerra Civil».

Comprova-se (mais uma vez) que é possível ter um produto comercialmente apetitoso, de cariz abertamente político e socialmente desperto. Respeitem a vossa audiência e o retorno comercial surgirá. O grande desafio coloca-se agora em transformar o que é um momento num movimento.

REPRESENTAÇÃO, REPRESENTAÇÃO, REPRESENTAÇÃO

Ta-Nehisi Coates, jornalista político e autor de «Black Panther: A Nation Under Its Feet», defende que a representação não é apenas uma questão de justiça social, é uma questão de contar corretamente uma história. Quando esta não tem uma representação diversa não está, na verdade, a refletir a realidade do mundo.

Os sonhos são limitados pela imaginação e o que imaginamos é moldado pelas referências a que somos expostos. Artistas, cientistas, ativistas, personagens literárias, heróis de banda-desenhada são retratos reais ou não, em que ao encontrarmos características partilhadas, nos projetamos. Na verdade, sonhamos com o possível, mesmo que a probabilidade de concretização seja à partida mínima. A representação, mais em concreto a representação fantástica, permite vermo-nos numa perspetiva mais ampla, o que poderá ser especialmente relevante quando existem restrições importantes à capacidade de sonhar.

Mas como pode a mudança na ficção traduzir-se numa mudança efetiva na realidade? Fica aqui um exemplo: na década de 60, a atriz Nichelle Nichols representou a tenente Uhura na série Star Trek, protagonizando o primeiro papel televisivo não estereotipado de uma mulher negra, assim como o primeiro beijo inter-racial em televisão, num momento em que os EUA se agitavam com a luta pelos direitos civis. Nichols, desapontada pela falta de dimensão da sua personagem e com vontade de voltar à Broadway, considerou seriamente desistir, até que um trekkie improvável insistisse para que ficasse, nada mais, nada menos, do que Martin Luther King JrNas décadas de 70 e 80, quando a NASA quis ilustrar uma tripulação diversificada teve de recorrer à ficção, e chamou Nichols para ocupar o papel de porta-voz do programa de recrutamento. A primeira mulher negra a viver ficcionalmente no espaço foi uma das responsáveis pelo recrutamento do primeiro homem e mulher negros, Guion Bluford e Mae Jemison, a irem de facto ao espaço.

 

Mas se quiserem entender como Pantera Negra pode inspirar audiências, vejam o vídeo seguinte (desafio-vos a não verterem uma lágrima, avanço já que Fallon não conseguiu).

 

WAKANDA NO FEMININO

Apenas 26,7 % de todas as personagens Marvel e DC são femininas e só 12 % das bandas-desenhadas de super-heróis mainstream têm um protagonista feminino. A banda-desenhada tradicionalmente representa a mulher de uma forma hipersexualizada e estereotipada, e a maioria das vezes são remetidas a um plano secundário. Em Pantera Negra, a banda-desenhada, Nakia é representada como a ex-namorada louca que vive obcecada por T’Challa, e as Dora Milaje, dependendo da série, são guerreiras concubinas, educadas para se tornarem a mulher do rei. Uma visão bastante divergente da do filme.

Wakanda, enquanto modelo de desenvolvimento, compreendeu que TODOS têm um papel a desempenhar na construção da nação. No centro da ação está a tríade Nakia, Okoye e T’Challa. Não são um rei com duas subalternas, são uma equipa. Esta ideia é reforçada pelas cores das indumentárias: Nakia sempre de tons esverdeados, Okoye de vermelho e T’Challa de preto; que em conjunto correspondem às cores das bandeiras pan-africanas. As duas mulheres defendem visões opostas do que Wakanda deverá ser: Nakia quer uma nação mais aberta e Okoye quer proteger os valores tradicionais. Ambas apresentam estes pontos de vista com respeito; um olhar fresco e real da amizade no feminino. Outro exemplo, são as Dora Milaje, que trabalham de forma sincronizada, mais próximas da ideia que lhes deu origem— as guerreiras Ahosi (do atual Benin). E depois temos Shuri, a irmã geek de T’Challa, criada originalmente por Reginald Huddlin, porque queria que a filha tivesse uma super-heroína à sua imagem para se vestir no Dia das Bruxas, que tem igual direito a ascender ao trono de Wakanda (na BD ela tomou o lugar do irmão por algum tempo).

Apesar de não passar o teste de Bechdel, em Pantera Negra a ótica das personagens masculinas sobre as femininas ajuda a equilibrar este defeito — T’Challa questiona a posição política de Wakanda por intermédio de Nakia. Na batalha final, Okoye chama W’kabi à razão e este ajoelha-se perante ela, confiando mais no julgamento dela do que no seu próprio; uma inversão de papéis poucas vezes vista no cinema.

Por fim, há a questão de como a beleza destas mulheres é representada. Este é um país orgulhoso de si mesmo e que rejeita uma imagem eurocêntrica. Nenhuma atriz foi penteada com recurso ao uso de produtos de relaxamento capilar. Na cena do casino, Okoye em modo espiã, atira a sua peruca à cara de um dos atacantes, transformando literalmente um objeto de beleza, usado por estas mulheres para corresponderem aos ideais de beleza brancos, numa arma. Uma imagem que encapsula a essência de como o filme retrata a mulher negra.

Contínua…

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