Nas mais recentes sugestões ortográficas existe uma palavra que – mesmo não concordando com as inovações abstractas – define a minha posição neste mundo através da sua dialéctica com a dita serôdia grafia (ambas são aceites, mas eu tempero aqui o cozinhado linguístico como mais me apraz), é ela: espetador. Higienizem-se as mentes mais sujas!, o que pretendo relevar é que, visto considerar-me espectador de tudo (com as devidas preferências), a minha tendência é – quase sempre – dar umas alfinetadas naquilo que me passou pela vista, ou seja, espetar maldosamente: empalar. Recorrendo a uma definição mais rigorosa: espetador é o empalador daquilo que assiste. (Relevem-se os neologismos, as metáforas e os subjectivismos).

Ora, em tom de confissão, venho assumir que sou um espectador maldoso. A eterna luta do bem contra o mal, que tanto serviu e serve de mote a argumentos de vários géneros, dentro de mim, resolve-se facilmente: triunfa o mal! Regozijo-me a espetar! Vivo expectando que o que assistirei me dê conteúdos para satisfazer a minha malvadez, abordando posteriormente, em “conversas de esplanada”, a sua fraca qualidade e pontos medíocres.

É mais fácil dizer mal do que bem. O bem exige mais esforço, o bem exige um olhar mais atento – tenha-se em conta que dizer bem só por dizer aproxima-se mais do mal do que do bem (já lá vamos!). Talvez tudo isso se justifique pela preguiça e pelos outros pecados mortais (gula, avareza, luxúria, ira, inveja, soberba). O fruto proibido é o mais apetecido, o que faz mal é o que sabe melhor (desde os cigarros ao sexo com amor).

Todavia, a razão principal é que gosto demasiado de algumas coisas para dizer bem delas, ou sequer falar delas. Isto, pura e simplesmente, porque não tenho a capacidade ou tempo ou vontade suficientes para abordar a questão com a dedicação e habilidade requeridas; e falar superficialmente daquilo que gosto é pior do que dizer mal; ou seja, se reconheço a qualidade de algo e não consigo mostrar essa qualidade, mais vale ficar calado. (Atente-se que dizer bem de algumas coisas é sempre dizer mal de outras, se eu digo que um amigo meu é um ser humano extraordinário, somente pelo facto de ser meu amigo, o que estou eu a dizer dos seres humanos que são efectivamente extraordinários!?, ou seja, quanto estou eu a rebaixar aqueles que vão para além do ordinário que é o dia a dia do qual e no qual eu sou espectador e espetador!?)

Interpretar seja o que for na sua imediatez é a pior sevícia praticável – origina guerras, fome, doença, pobreza (de bolso e de espírito), difamação, etc. – contudo, isto já é um problema político e cultural demasiado profundo. Assim, procuro coisas que não gosto, porque dizer mal é fácil e praticá-lo é mais fácil ainda; torturando-me, certamente, mais a mim do que aos outros.

 

Se o caro leitor chegou a este ponto frustrado por não ter percebido o fito do texto, saiba que nem eu – e acuso a trivialidade do que foi dito.

 

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