É, provavelmente, o mais famoso navegador da história. Não dominava bem a medição em milhas árabes, convenceu-se que a circunferência da Terra andava à volta dos 30.000 km e que, das Canárias ao Japão, era um pulinho. Veio a Portugal fazer o pitch, mas a ideia de chegar às Índias por ocidente não entusiasmou a rapaziada. Levou a proposta aos reis de Espanha e, insistindo, convenceu-os. Encontrou o Novo Continente e, sem ter descoberto, por aqueles lados, uma pimenta preta que fosse, morreu convencido que tinha chegado às Índias.

A 4 de março de 1493, Cristóvão Colombo chegava a Lisboa da sua primeira viagem ao Novo Continente. Antes de seguir para Espanha, concedeu duas entrevistas. Uma a D. João II, rei de Portugal, outra a Acúrsio Araújo, meu tetra-tetra-tetra-tetra-tetra-tetra-tetra-avô. 525 anos depois, do sótão do meu pai para o mundo. Um exclusivo do Carapau de Corrida.

Avisos à navegação:
1. Aparentemente, Cristóvão Colombo falava um “castelhano aportuguesado”. O que nem sempre o torna fácil de ler. A Real Academia Espanhola pode, de quando em vez, ajudar.
2. As notas, no texto identificadas como ndr. são do redactor.

 

A. Araújo – Almirante, bem vindo, muito obrigado por se deslocar ao Porto para esta entrevista.

Cristóvão Colombo – Tchau ragazzo. Nada que agradecer hombre, com mucho gusto. De qualquer forma, iba a ver el Rey. Porto está en caminho.

A. Araújo – Mas, se estava em Lisboa e El Rey D. João II também, como é que o Porto fica no caminho?

Cristóvão Colombo – Eu conheço uns atalhos.

A. Araújo – Com certeza Almirante. Bom, antes de mais, muitos parabéns pela descoberta do caminho ocidental para as Índias. Como é que se sente?

Cristóvão Colombo – Ah grazzie. Pues, muy contento, muy contento. Todo el equipo trabajó bien, con mucha humildad. Ahí. Atentos. Y al final si trabajas bien, las cosas salen. Graças a Deus, deu tudo certo cara.

A. Araújo – Almirante, reparo que me vai falando em vários idiomas. O que abre a oportunidade para lhe fazer uma pergunta que a posteridade agradecerá. Onde nasceu?

Cristóvão Colombo – Bueno (ndr.: faz uma pausa longa). Esto queda entre nosotros, ¿verdad?

A. Araújo – Claro que sim Almirante.

Cristóvão Colombo – Na Maia.

A. Araújo – Onde?

Cristóvão Colombo – Na Maia. Nasci na Maia, caralho. Puooorto. (ndr.: ninguém, aqui na redacção, faz a mais pequena ideia onde seja esta terra de a Maia, mas supõe-se que seja um povoado relativamente perto da cidade do Porto).

A. Araújo – Que revelação. Boas recordações da infância nessa Maia?

Cristóvão Colombo – Bueno, yo era um rapaz solitário. Me acuerdo de un par de ovejas (ndr.: o Almirante pisca o olho).

A. Araújo – Bom, passando à sua juventude. Antes de ser um homem dos mares, teve outros misteres?

Cristóvão Colombo – Por supuesto. Trabajé de tecelão, cartógrafo e menino da sacristia.

A. Araújo – E como correram essas experiências?

Cristóvão Colombo – Hum… a ver. Yo fui sempre um incompreendido. Na cartografia, por ejemplo, si un país tenia una geografia fea, yo la mejoraba, le hacia un recorte guapo, le ponia unas montañas, unos lagos, umas cascatas. Como Flandres, que geografia más aburrida ¿verdad? Mas as pessoas não percebiam. Tens que desenhar como é na realidade Cristóvão, senão os navegadores não se vão orientar. Um tédio. Na tecelagem quis introduzir o fúcsia mas o meu pai não deixou. Era um homem sem visão.

A. Araújo – E a sacristia?

Cristóvão Colombo – Ah, aí sim, o capelão gostava imenso de mim (ndr.: o Almirante volta a piscar o olho).

A. Araújo – Mas eventualmente saiu de Portugal, esteve em Itália.

Cristóvão Colombo – É vero.

A. Araújo – Porque é que emigrou?

Cristóvão Colombo – Teve de ser. Não havia trabalho. Mas a Maia ficou sempre aqui foda-se (ndr.: o Almirante aponta para o coração). Puoooorto.

A. Araújo – Regressa a Portugal e casa-se.

Cristóvão Colombo – Com a Pipinha. Deus a tenha. Conhecemo-nos na Madeira.

A. Araújo – Diz-se que teve muita influência na sua ideia de chegar às Índias pelo ocidente.

Cristóvão Colombo – No, no. La idea de ir para las Índias me la pasó el Firmino.

A. Araújo – O Firmino?

Cristóvão Colombo – El chico da mercearia.

A. Araújo – O Firmino da mercearia?

Cristóvão Colombo – Ese.

A. Araújo – Como assim?

Cristóvão Colombo – Pues nada. Un viernes voy à mercearia. ¿Que tal te va la vida Firmino? estás más flaco chico (es bien gordo el Firmino), el día si que se ve bueno ¿verdade? y todo eso, e às tantas, olha lá Firmino, a como é que está a pimenta preta? Y el pendejo me dice 10 maravedis! ¿10 maravedis, gordo de mierda???!!!! ¿Como te atreves??!! Y el Firmino, que la cosa esta fea, que los Otomanos son unos brutos, que la ruta de la seda esta difícil y no se que más. E aí digo, ya esta, voy a por la pimenta yo mismo. E foi assim, fui pela pimenta.

A. Araújo – Pelo ocidente.

Cristóvão Colombo – Claaaro hombre, esta más cerca.

A. Araújo – Mas havia quem duvidasse. El Rey D. João II não acreditou em si.

Cristóvão Colombo – É que El Rey está muito mal aconselhado. Eu disse-lhe, tá aqui ao lado Majestade. 2, 3. 4 mil km. No máximo.

A. Araújo – E El Rey?

Cristóvão Colombo – Que não Cristóvão, está mais longe, e entretanto até já mandei o Bartolomeu espreitar que tal se vai às Índias pelo oriente e, parecendo que não, agora é chato estar-lhe a explicar que afinal quero ir por ocidente.

A. Araújo – E o Almirante?

Cristóvão Colombo – Que si Majestad, que lo entiendo, usted verá, yo solo le digo que se las va a perder. Es que está al adito. Al adito está. De ley se lo digo. Al lado. Pero bueno. Usted verá.

A. Araújo – El Rey D. João II não acreditou, mas os Reis Católicos, sim. Foi fácil convencê-los?

Cristóvão Colombo – No tanto. Diziam-me, que no te enteras Cristobal, hay más agua de lo que te imaginas. Cipangu esta lejos, es donde nace el sol hombre, los árboles dan frutos de oro, hay póneis de canela corriendo hacia el arco-iris, esta lejos chico.

A. Araújo – E o Almirante?

Cristóvão Colombo – Disse-lhes, Majestades ‘tou com um feeling que ‘tá aqui ao lado.

A. AraújoFeeling?

Cristóvão Colombo – É uma cena nova que eu inventei. Vai pegar. Verás.

A. Araújo – E resultou.

Cristóvão Colombo – Bueno, o vinho da Madeira que levei ajudou. Às tantas, passámos de Cristobal eres un necio, ni sumar eres capaz, para que si Cristóbal vamos a eso hombre, a por las Índias compañero, como te quiero chico, pasáme el vino Cris, que cojones hombre. Al final, ¿que más dá? ¿3 barcos? eso me lo gasto en una cena con mi primo. Vamos a por los índios, Cris. La pasamos muy bien esa noite.

A. Araújo – E o recrutamento de marinheiros?

Cristóvão Colombo – Tranquilo. Yo por las buenas, que les parece ir a las Índias chicos? E eles de corda no pescoço. Estupendo Don Cristobal, estupendo, como le agradecemos la oportunidad, yo sempre quise conocer el mundo. Que bueno, Don Cristobal, que alegría me dá.

A. Araújo – A viagem? Sem problemas?

Cristóvão Colombo – Bueno, tivemos um ou outro problema.

A. Araújo – Que aconteceu?

Cristóvão Colombo – Nada. Unos chicos sin fé. Que no es por aqui Don Cristobal, yo lo veo feo, mire que al final prefería la cuerda, se ve mas rápido. ¿Cómo se le ocurre? Índias por Occidente Don Cristobal, con lo bien que estábamos en Canarias que hace un solcito rico. Volvamos para trás Don Cristobal, no pasa nada, nadie se entera, con lo bien que estábamos. En realidad creo que prefería la cuerda ¿me la puede traer Don Cristobal?

A. Araújo – E o Almirante que fez?

Cristóvão Colombo – Expliquei-lhes que estava com um feeling.

A. Araújo – E voltou a resultar?

Cristóvão Colombo – Hum, no. Foi preciso atirar meia dúzia borda fora. Deus lhes perdoe. E passado uns dias avistei terra.

A. Araújo – Constou que foi Rodrigo de Triana o primeiro a avistar terra.

Cristóvão Colombo – Ese pibe se subía al mastro todos los putos días y siempre gritava “tierra a la vista”. Y luego claro, ah que no, que me equivoque chicos, perdón, que era una roca, lo siento compañeros. Assim até a minha avó.

A. Araújo – Havia a promessa de os Reis Católicos atribuírem uma pensão vitalícia ao primeiro homem que avistasse terra.

Cristóvão Colombo – Claaaro tío. ¿Y se la voy a dejar a ese pendejo del Rodrigo? Era.

A. Araújo – E chegou a Cipangu.

Cristóvão Colombo – Bueno, así Cipangu, Cipangu, lo que se dice Cipangu, no es. Esta en las afueras.

A. Araújo – Nos arredores.

Cristóvão Colombo – Claaro. Atracámos, vamos dizer, na Gondomar de Cipangu.

A. Araújo – Gondomar?

Cristóvão Colombo – Es un pueblito português, al lado de Évora.

A. Araújo – Certo. E os arredores são muito diferente da Cipangu, descrita por Marco Polo?

Cristóvão Colombo – Bueno, la gente allí es un poco más oscura. Como medio negritos. Pero, es que hace mucho sol. Un solazo, tío. No te imaginas. Luego son un poco brutos. Nunca ouviram falar do Grande Khan. Y hablán un chino raro.

A. Araújo – Houve necessidade de intervenção militar?

Cristóvão Colombo – Para nada. Nós ainda montámos um par de fortificações, mas eles achavam que queríamos jogar às escondidas.

A. Araújo – E são crentes?

Cristóvão Colombo – Muitíssimo. Los primeiros días yo les hablaba de Cristo y ellos que la tierra madre, los animales, que bonito se ve el cielo y las estrelas y no se que pendejada más, e aí eu crucifiquei uns 5 e eles perceberam. Deus lhes perdoe. Muy, muy cristianos. Trouxe uns 30 comigo de lá. Infelizmente só me sobraram 7. Enjoam muito os índios. Los pobres. Não estão habituados. É malta que viaja pouco. Aliás, tenho um aqui, queres vê-lo?

A. Araújo – Seria uma honra.

Cristóvão Colombo – Paaaaaacoooo. Paco, ven aqui. Chamei-lhe Paco. O nome dele não se percebia. Era em chinês.

(ndr.: entra um índio acorrentado)

Cristóvão Colombo – Paquito, dile algo al señor. Lo que te enseñe.

Índio – Wu’a.

(ndr.: o Almirante chicoteia o índio)

Cristóvão Colombo – Dios te perdone. Que te dije con hablar chino, Paco? (ndr.: o Almirante volta a chicotear o índio). Dios te perdone.

Índio – Arriba, arriba. Viva España.

(ndr.: o Almirante sorri)

Cristóvão Colombo – Va a ser un exitazo en España este Paco.

A. Araújo – Então não houve qualquer tipo de resistência?

Cristóvão Colombo – Ehhh… en la última isla que estuvimos, que, já agora, baptizei, estrondosamente, de Española. Muy bueno, ¿verdad? Tivemos umas escaramuças.

A. Araújo – Escaramuças?

Cristóvão Colombo – Queríamos trazer uns arcos e umas setas para pôr no meu escritório e os tipos queriam dinheiro. Um escândalo. Y ahí les digo, pues esperarme amigos que vuelvo en un par de minutos. Y fui a por las escopetas, que tal compañeros, ¿como les va? Unos tiros e de, quiero 2 marevedis por esta flecha, passámos a, menos, menos, por favor Dios blanco, que era broma, se lo regalámos, con gusto, de verdad. E fizemos negócio.

A. Araújo – Arcos e flechas? E o ouro, a seda, as especiarias? A sua pimenta preta?

Cristóvão Colombo – Ouro trouxemos qualquer coisa, ofereceram-nos uns colares e umas pulseiras. Isto já depois dos tiros claro. Seda não havia. Na periferia não é fácil encontrar seda. Con la pimienta si que tuvimos muy mala suerte. Verás, chegámos numa sexta e na quinta, justo el viernes, tinham vendido toda a pimenta. Muy mala suerte, tío. Me cabreé bastante, pero luego crucifiquei uns 3 índios y me calmé. Dios les perdone.

A. Araújo – E o regresso?

Cristóvão Colombo – Tranquilo. Deixei la Pinta ir sozinha e trouxe la Niña por um atalho.

A. Araújo – La Pinta, entretanto, já chegou a Espanha.

Cristóvão Colombo – A sério? Que raro.

A. Araújo – Almirante estamos perto do final, queria agradecer-lhe esta entrevista. Foi uma honra.

Cristóvão Colombo – Por favor hombre, un gusto. Oye para ir a ver El Rey, mejor voy por Faro, no?

A. Araújo – El Rey não está em Lisboa?

Cristóvão Colombo – Así es.

A. Araújo – Então… daqui do Porto seria só ir para sul, não sei se valerá a pena ir até Faro.

Cristóvão Colombo – Si hombre, pasando por Faro, como que corta camino.

A. Araújo – Claro que sim Almirante, por Faro é mais rápido.

Cristóvão Colombo – Grazzie. Um abraço chico. Vamos Paquito. (ndr.: o Almirante puxa o índio pelas correntes). Que Dios te perdone chino.

 

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