Paredes de Coura. Que seja simplesmente sinónimo de um dos muitos festivais de Verão portugueses não faz minimamente jus ao que é possível encontrar quando chega Agosto e há que rumar a Norte.

Nascido do sonho de uns quantos miúdos que procuravam somente passar um bom bocado e trazer boa música ao lugar onde nasceram e cresceram, este festival conta já com 25 edições celebradas. Uma longevidade impressionante para quem começou tão pequeno mas conseguiu crescer, sustentadamente, e sem interrupção.

Por ele, todos os anos e sem excepção, vamos contando os dias em falta até ao muito aguardado regresso. Foi assim que sempre fizemos, é assim que o sentimos, como se de um ritual acarinhado se tratasse. Uma necessidade que nos impele com ânsia desmedida para essa paragem que consideramos mítica. Fazemo-lo porque nos move a música, os cartazes sempre tão pautados de nomes que queríamos ver (obrigada, João Carvalho) e de outros que não conhecíamos, mas que nos arrebatam numa tarde inesperada, com acordes tão envolventes, a que é impossível ficar indiferente. Em Paredes de Coura a música é celebrada, no seu habitat natural.

Gostamos dos dias longos a que por lá temos direito, da plenitude da palavra liberdade de que ali gozamos, do conforto que é estar rodeado pelas caras conhecidas que nos acompanham desde o início. Guardamos cada edição com carinho, na nossa memória, e somos capazes de enumerar com precisão os cabeças-de-cartaz do ano em que fomos pela primeira vez, do ano em que choveu sem interrupção, do ano em que tivemos o privilégio de ouvir a nossa banda favorita, no lugar certo.

Voltamos sempre a casa, ao lugar que, ano após ano, nos recebe de braços abertos, e às ruas familiares que permanecem estanques no tempo, como que à nossa espera. Corremos os cafés da vila, que já nos conhecem os hábitos, passamos no incontornável Centro Cultural, onde tantas vezes descansámos enquanto carregávamos o telemóvel, perdemos a noção das horas à conversa nos pequenos supermercados. As histórias vão sendo muitas e nós fazemos por recordá-las nas esplanadas onde nos sentamos sem olhar para o relógio.

Nunca subir um declive assim soube tão bem, aquele que nos macera as pernas mas que é sempre feito da expectativa de que a música que nos aguarda no cimo não fique aquém do que esperámos. É muito raro ficar.

Assim que entramos naquele recinto, somos inundados por um verde que não parece existir em nenhum outro lugar e pelo som que ali ganha uma vida especial e nos deixa inebriados de felicidade, acompanhada de um arrepio bom.

Por Paredes, como carinhosamente o apelidamos, suportamos a chuva, os concertos enlameados e as tendas dançantes no chão ensopado. Perdoamos o frio que se faz sentir e nos gela até aos ossos. Toleramos o Sol, que nos acorda muito antes de o corpo o pedir e nos aquece durante uma sesta nas margens do rio. Tudo isto porque em Paredes ouvimos poesia, temos tempo para ler o jornal e o mundo não nos tenta entrar, com a sua pressa habitual, pelo peito adentro. Em Paredes sentimos paz, jogamos às cartas, lemos um livro. Há copos com os amigos e com outros que acabámos de conhecer, há noites que se prolongam até ao nascer do Sol.

Que ninguém nos tire esse Agosto, na nossa vila minhota, de coração a transbordar de uma tranquilidade ímpar.

Que fiquem para sempre na nossa memória os concertos em fim de tarde, com o sol a cair demorado, atrás do palco, e o anfiteatro natural a permitir descansar as pernas, para outras experiências musicais que a seguir virão. Consagrem-se as bandas icónicas que já pisaram aqueles palcos e nos embalaram nas noites frias, nos fizeram saltar bem alto e entoar cânticos em coro. Paredes de Coura é assim, uma banda sonora para toda a vida.

Quando termina, é sempre difícil dizer adeus. O que nos consola é o incontornável «até para o ano» que repetimos, com convicção, e no qual fazemos questão de acreditar tanto, que se tem tornado uma realidade com direito a repetição. Que assim continue a ser.

 

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