No son más silenciosos los espejos 
ni más furtiva el alba aventurera; 
eres, bajo la luna, esa pantera 
que nos es dado divisar de lejos. 
Por obra indescifrable de un decreto 
divino, te buscamos vanamente; 
más remoto que el Ganges y el poniente, 
tuya es la soledad, tuyo el secreto. 
Tu lomo condesciende a la morosa 
caricia de mi mano. Has admitido, 
desde esa eternidad que ya es olvido, 
el amor de la mano recelosa. 
En otro tiempo estás. Eres el dueño 
de un ámbito cerrado como un sueño.

A un gato, Jorge Luis Borges, 1972

 

Borges tinha dois gatos, Odín e Beppo. Parece que o segundo se chamava Pepo, mas Borges, por achar o nome horrível, rebaptizou-o Beppo, o gato de Lord Byron conhecido por beber leite de uma taça em forma de crânio. «O gato não deu conta e seguiu com a sua vida». O fascínio que inúmeros escritores foram tendo ao longo do tempo pelo Felis catus é notável e bem conhecido. E talvez isso seja sintoma daquilo que eles são, possivelmente por terem mais em comum do que aquilo que os mais distraídos possam pensar.

Toda a gente com gatos, ou que lide com gatos, sabe que os gatos sabem qualquer coisa que as pessoas não sabem. É aquele olhar, uma distância calculada ao existir no espaço, uma necessidade de estar junto só quando faz sentido – mesmo que na altura ninguém perceba porquê. Os gatos são o animal mais próximo da natureza em estado puro com que já contactei.

Mas isso é uma coisa que só se nota no convívio diário com eles, observando atentamente a forma como se mexem, o para onde estão a olhar, a forma como perseguem os pequenos insectos ou se deixam dormir ao sol horas infinitas deixando o metabolismo baixar até ao limiar fisiológico, mas mantendo quase sempre um olho aberto, pronto a despertar ao mínimo movimento.

O escritor que olha fascinado para o gato tentando perceber-lhe a intenção sabe que é assim. Como as coisas boas da vida, os gatos não são, também eles, naturalmente dados. Como os escritores, são reservados quando têm de ser. Para mostrar obra pronta precisam de tempo e reflexão.

Kedi (2016)

É tudo isto que Kedi conta, promete e acaba por cumprir. Em Istambul, uma cidade imensa e caótica como todas as cidades notáveis, o gato (kedi, na língua turca), mais que um habitante, é parte da cidade e das vidas dos humanos que com ele partilham esse caos. Ao seguirmos a história dos vários protagonistas, gatos (ou kediler), há ideias que não podemos deixar de assimilar.

Primeiro, a noção de individualidade. Que cada gato é um gato, e as suas personalidades são encantadoramente múltiplas. Como a gente, podem ser brincalhões ou carrancudos, afáveis ou territoriais, patetas ou inteligentemente superiores.

Depois, a certeza da liberdade. Comovente a forma como as pessoas abraçam a ideia de viverem em comunidade com eles, parando para os afagar, alimentando-os, dando espaço para que os gatinhos possam crescer, adoptando-os como seus quando necessário, mas, principalmente, não os adoptando de todo – que a pertença não cabe nessa relação, que ser livre há de ser não ser de ninguém.

Por fim, uma imagem: o gato que aproveita o que lhe calha em sorte – um resto de peixe, um cobertor para o frio – sem agradecer, sem deixar que lhe toquem, sem um miado que se lhe oiça. Esta ideia, absoluta, de dar sem esperar receber nada em troca, quiçá a própria definição do acto, é profundamente marcante no documentário. E faz-nos pensar que oxalá a vida, como um pedaço de pão a abaladiça, pudesse ser tão simples.

O trailer, aqui.

Sgt. Pepper e Penny Lane

Encontrámos a Pepper à chuva, junto a uma estrada num centro de equitação. Vinha assustada e molhada e com pulgas a correrem para lá e para diante no focinho inteiro. Pesava 700 gramas e ronronava cada vez que sentia o toque de uma mão, como quem agradece o resgate antes de um fim trágico, junto a uma estrada, à chuva. Chamámos-lhe Sgt. Pepper porque um dia tínhamos dito que se tivéssemos um animal de estimação ele se haveria de chamar assim – afinal quem não gostaria de ter nome de álbum dos Beatles? – ainda que nos tenham explicado que Sgt. Pepper é nome de menino, pois que fosse que a nossa iria ser do contra.

Mais tarde, a gata de uns amigos teve gatinhos e, num fim-de-semana, fomos encontrar um deles escondido dos irmãos e da mãe no cesto da roupa por passar. Era a mais pequena da ninhada –  uma menina – e, nessa altura, decidimos que tínhamos espaço, tempo e vontade para outra faixa, por isso chamámos-lhe Penny Lane, curiosamente o lado B de uma música que só surge na versão alargada do Pepper, o Strawberry Fields Forever, a vida, de quando em vez, calha bem.

A Pepper consegue passear na secretária do escritório onde amontoámos inúmeras molduras ziguezagueando por entre os espaços vazios, não derrubando nenhuma. A Penny já partiu duas, mais uma mais ou menos, roeu duas vezes o cabo da fibra óptica e uma vez o cabo do computador do trabalho. A Pepper observou, de longe, e reprovou. A Penny arranha no sítio certo, um arranhador, e a Pepper arranha no sofá. A Penny brinca com uma bolinha e com tudo o que mexe – e com o que não, também – e a Pepper com o laser e com a Penny propriamente dita, mas só quando lhe apetece, ainda que à Penny apeteça quase sempre. A Penny trepa até aos móveis mais altos da cozinha. A Pepper fica cá em baixo a chamar. A Penny come a comida da Pepper e a Pepper come a comida da Penny. Nenhuma reprova este comportamento que parecem considerar benéfico uma para a outra. A Pepper é elegante em tudo e a Penny em nada, ainda que a Pepper bufe por tudo e por nada e a Penny nem bufar saiba.

São tão fundamentais que é difícil imaginar a casa, como a vida, antes delas. Por isso, tendo a assumir que sempre cá estiveram e escrevo-lhes esta crónica que não sei se algum dia irão ler.

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