Aviso! Se não viram o filme e têm prurido a spoilers, estão por vossa própria conta e risco.

A ideia de um super-herói negro no cinema não é novidade. Antes da adaptação de Pantera Negra, existiu Blade (1998) e Hancock (2008). O que marca a diferença em relação a estes dois, é que no primeiro a blackness da personagem é assumida e marca definitivamente a narrativa, ao passo que nos outros surge como apenas acidental. Ao contrário de outros filmes aclamados sobre a experiência negra, esta não é uma exploração da dor, pobreza ou sofrimento. É a aclamação de um conjunto de personagens com ideais positivos que celebram a sua identidade sem pedirem desculpas ou sem «traduções» para um público branco. E tudo isto é enrolado num festim visual à la Marvel. Neste momento, podemos dizer com confiança: Pantera Negra é um marco cultural.

Nas últimas semanas apanhei um voo até Wakanda (parece que já os existeme trouxe na bagagem algumas razões para que não deixem de ver o filme.

EM ÁFRICA, NASCE UM HERÓI RADICAL

Pantera Negra foi o primeiro super-herói de banda-desenhada negro a chegar ao circuito mainstream. A evolução da personagem ao longo das várias séries, e conquista crescente de seguidores, é um exemplo de como a perceção das minorias pode mudar quando o controlo da narrativa é dado a quem de direito.

Criado, em 1966, pelos lendários Stan Lee e Jack Kirby, T’Challa (Pantera Negra) fez a primeira aparição no número 52 de Quarteto Fantástico enquanto rei e protetor de Wakanda, um país africano futurista, que sustenta as suas maravilhas tecnológicas através da exploração de vibranium, um metal raro com propriedades únicas. Apesar de a sua origem ser anterior e em nada estar associada à do partido político homónimo (Panteras Negras), o herói foi rebatizado por um breve período de Leopardo Negro, à revelia dos criadores.

Panther’s Rage

O conceito de um líder negro, rico, inteligente e poderoso pode ter sido revolucionária para o contexto político da altura, mas até 1972 a personagem permaneceu remetida a aparições periódicas em Quarteto Fantástico e incursões em aventuras de Os Vingadores. Don McGregor, que trabalhava como revisor na Marvel, foi o responsável por dar dimensão a Pantera Negra. Depois de expressar o seu ultraje com o conteúdo racista da série Jungle Action — reedições dos anos 50 de aventuras de personagens brancas em países africanos malfadados (shitholes, como diria Trump) –, foi-lhe atribuída a tarefa de reinventar Pantera Negra para a mesma série, com a única condição de que a ação se passasse em África. E assim, nasceu Panther’s Rage, uma série com 13 números (1973–1975) marcada por um elenco de personagens africanas negras, algo nunca antes visto na banda-desenhada mainstream. É desta série que é retirado Erik Killmonger, o vilão do filme, interpretado por Michael B. Jordan. Apesar de serializada, alguns consideram Panther’s Rage o primeiro romance gráfico, visto a narrativa ser ininterrupta, coesa e extensa.

Ascensão a estatuto cool

A elevação de Pantera Negra a ícone só aconteceu, no entanto, no final dos anos 90, quando autores negros passaram a assinar as narrativas. A versão do herói que muitos consideram ser a seminal surgiu num momento de crise financeira: Marvel, à beira da bancarrota, assina com Joe Quesada e Jimmy Palmiotti um contrato para uma nova série, Marvel Knights. Estes por sua vez recrutam Christopher Priest (1998—2003), o primeiro autor negro a trabalhar a tempo inteiro na Marvel e DC. Ao longo de 62 números, T’Challa é apresentado como um super-herói misterioso, duro, astuto e muitas vezes em desacordo com os companheiros de Os Vingadores, primeiro no exílio nos EUA e depois como líder de Wakanda. Reconhecendo que muitos dos leitores nunca iriam ultrapassar as questões raciais, Priest, em vez de alterar as características do herói para ir ao encontro dos gostos destes, voltou-se para uma outra solução. Inspirado por um episódio da série FriendsThe One With the Blackout») em que Chandler fica preso num vestíbulo de máquinas multibanco com uma supermodelo, Priest criou uma personagem ponto de vista, o agente da CIA Everett K. Ross (interpretado por Martin Freeman no filme): alguém que validasse os medos e presunções dos fãs brancos de super-heróis, relutantes em comprar um livro com um protagonista negro, e que simultaneamente permitisse momentos cómicos. O autor deu densidade e nuance à faceta de monarca de T’Challa, definindo a estrutura de poder de Wakanda, com as suas tradições tribais, e reafirmou o seu estatuto como uma das mentes mais manipuladoras do universo Marvel.

Seguiu-se Reginald Hudlin, que introduziu tramas relevantes como o casamento com Storm dos X-Men e a criação da Princesa Shuri, meia-irmã de T’Challa. Mais recentemente Ta-Nehisi Coates, autor, jornalista político e, coincidentemente, contemporâneo de Chadwick Boseman (ator que interpreta Pantera Negra na adaptação cinematográfica) na Universidade de Howard, imprimiu o seu cunho à personagem e incorporou temas como o feminismo, através, por exemplo, do exército de guarda-costas de T’Challa, as Dora Milaji, e queerness. Segundo o produtor Nate Moore, a visão de Ryan Coogler (Fruitvalle Station, Creed), realizador e co-argumentista, foi influenciada fundamentalmente pelas perspectivas de Priest e de Ta-Nehisi Coates (Coogler e Coates são amigos), inclusivamente na estética e sentimento geral do filme, integrando aspetos relativos ao design e tecnologia wakandiana.

 

 

BLACK TO THE FUTURE: O MOVIMENTO AFROFUTURISTA

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O autor de ficção científica Steven Barnes propõe: se a ficção científica é uma forma de olharmos para o mundo e de criarmos novos mitos e formas de entender o nosso papel neste, então o afrofuturismo questiona «qual é o papel do indivíduo negro no universo?».

Apesar de ter surgido na década de 60 do século XX, contando com o artista de jazz cósmico Sun Ra como figura pioneira, só em 1994, o termo afrofuturismo foi cunhado por Mark Dery, no ensaio Black to The Future. Apesar de constituir um conceito fluído, a autora e académica Tananarive Due define-o como um movimento cultural, social e artístico pluridisciplinar (literatura, cinema, música), fortemente enraizado na diáspora africana, e que pretende criar um novo passado (alternativas à História) e futuro para o povo negro. Para tal, os afrofuturistas socorrem-se do plano especulativo, evocando o mito, a fantasia, a ficção científica, o horror.

Segundo Steven Barnes, todas as culturas acreditam ser superiores e recorrem aos mitos para explicar a origem do universo e profetizar o futuro. Quando a cultura, a linguagem, as crenças, etc., foram retiradas aos afro-americanos e substituídas pelas de indivíduos brancos, foi-lhes roubada uma ferramenta crítica na construção da consciência de si próprios e enquanto atores do seu destino. É preciso acreditar antes de tentar, e tentar para poder concretizar.

«I wasn’t born this way. One creates oneself», já dizia Grace Jones. A fabricação pelos seguidores do movimento de novas identidades para si próprios, que contrastam com aquelas que a sociedade lhes concedeu, geralmente definidas pela subordinação, é frequente. Atentemos no exemplo da cantora, compositora e actriz Janelle Monae. As suas obras musicais estão enlaçadas entre si por uma narrativa transversal. Nesta, Monae declara-se meia-andróide, uma identidade que usa para exprimir a sua vivência enquanto mulher afro-americana. Apesar de ficcional, Pantera Negra é uma identidade dentro de outra. Segundo Boseman, a personagem tem poder dentro do poder do fato.

Pantera Negra é uma reinvenção aspiracional de África, mostrando um país não colonizado, mas soberano, com uma cultura e sociedade libertas das constrições da História, com uma agenda política e social que dignifica o povo africano e a diáspora africana, e uma estética que esbate a linha temporal, ao combinar tecnologia com tradição, visível por exemplo no guarda-roupa e nos cenários (os edifícios apresentados são edifícios reais existentes em África, cujas dimensões foram ampliadas). Todas estas características tornam Pantera Negra numa peça afrofuturista mainstream.

 

 

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