É uma moda, certo?

Olá a todos. Daqui fala um percebes que já foi vítima de assédio. Daquele cruel. Daquele que vive entre o conceito do assédio e da violação. Daquelas situações em que existe pressão psicológica de alguém com poder. Daqueles em que existe um aproveitamento da fragilidade de um percebes pequenino em início de carreira e longe do seu habitat natural. Onde pressão física no percebezinho de 20 anos e 50 quilos foi exercida. Sim, imaginem um percebes com 50 quilos como metáfora exagerada no contexto desta peixaria e para parecer menos malévolo.

O que lá vai, lá vai.

Nisto já lá vão 12 anos. Este texto não pretende ser uma secção de auto-ajuda. Também não pretende calar quem diz que isto é uma moda. Os percebes deste mundo que passam por isto provavelmente entendem o que irei explanar. No início há vergonha. Há ideia de que algo errado fizemos. Isto porque é o que provavelmente nos iriam dizer se existisse a coragem de contar algo sobre estes acontecimentos. Porque vivemos num julgamento constante perante os outros. Durante anos a fio, só foi possível exteriorizar sob a forma de palavras a uma ou duas pessoas quando já não dava para guardar mais cá dentro. Quando o asco precisava de ser expelido. Passam os dias, as horas, talvez uns anos. A auto-estima volta e olhar para trás é mais fácil. Porque há a sorte de ter coisas melhores onde focar as ideias. Até aqui muito provavelmente não digo nada de novo. Se calhar nem vou dizer nada de novo ao longo do meu texto. Se o aborrecimento já chegou, é passar para um texto mais animado dos meus peixinhos amigos.

Isto de se ser humano.

O problema do assédio sexual é que se perde a fé no ser humano. Deixamos de acreditar que alguém consegue olhar para nós para além da nossa forma corporal ou do sexo que temos. Começamos a entender de forma suja e descarada como funciona realmente o mundo. Isso é o mais difícil de reaver. A crença que a humanidade com uma moral acertada pode existir. De que vamos ter mérito pela nossa inteligência, por sermos bons profissionais ou por termos boas ideias. Ainda que no fim possa não ser isso que nos alavanca a vida. Possa ser apenas o nosso instinto animalesco mais básico. Aquele que não nos distingue dos demais animais. Aquele que nos punha no jardim zoológico.

Adeus 2017. Olá 2018.

O final do ano de 2017 e início de 2018 é marcado por este tema de uma forma muito densa. Confesso que já não pensava nisto há anos. Era um passado timidamente enterrado longe da minha vista. No entanto, está por todo o lado. Impossível de não me rever em muitas acusações. De perceber que existem casos onde claramente há uma confusão sobre o que é assédio e o que é a normal conduta de aproximação entre um homem e uma mulher. Ou um homem e um homem, ou uma mulher e outra mulher. Assédio sexual é quando alguém em posição de poder se aproveita desse mesmo poder sobre outra pessoa. Sexo não consensual numa outra situação qualquer é outra coisa. É muito grave. Mas é outra coisa. Quando saímos à noite, vamos a encontros, enviamos mensagens a espicaçar… são comportamentos normais de flirt entre duas pessoas que se querem conhecer melhor. Isto não é assédio. É um comportamento normal. Aplicações como a LegalFling em que se fazem consentimentos escritos para fazer sexo são um bocadinho anti-tesão, não? Onde há predefinições do que se pode ou não fazer durante o acto? Ou sou só eu a ser velha? As acusações feitas ao Aziz Ansari entram no campo do «uma foda mal dada/esquisita que eu preferia não ter tido». Ou sou só eu a ser malcriada num texto porque a minha editora me deixa? Há muitas notícias a sair agora que são outras coisas e que querem aproveitar este tema de que tanto se fala.

O aproveitamento de publicidade ou negócios à volta deste tema só o descredibiliza e fá-lo perder a força que deve ter. Defendo as mulheres com unhas e dentes (#MeToo) mas defendo a nossa capacidade de dizer não. Nomeadamente em casos em que não há força envolvida. No meu caso o que me safou de uma violação à força foi dizer «Tenho 20 anos. A sua filha tem a minha idade, gostava que lhe fizessem isto?». Se calhar tive a sorte de ter um argumento poderoso.

Não deixar o medo voltar.

Não podemos deixar esta onda de deixar de ter medo de falar cair por terra. Lembra-me uma aula de Mestrado em que uma professora nos falou sobre a patrimonialização da imagem de Che Guevara. Ao mostrar a imagem de stencil de Che a uma audiência de alunos, percebeu-se que muitos conheciam a imagem por aparecer em t-shirts e desconheciam sequer o homem ou o seu legado. Porque ao ser massificado, de certo modo, perdeu a sua real importância. Não deixemos que isto aconteça. Há que fazer uma distinção.

 

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