“Não olharás para o prato do próximo”.

Este será, provavelmente, o mandamento culinário mais difícil de seguir. Eu própria gosto pouco que me olhem para o prato e comentem o que estou a comer, mas acontece que no pouco tempo de vida que levo neste país, nuestros hermanos já se meteram com a gastronomia portuguesa, clamando que a espanhola é muuuuito superior, e eu não posso ficar calada perante uma afirmação destas. E vocês não imaginam o que eu dava agora por um peixinho grelhado. 

¡A tomar por culo, tío! Encher todo e qualquer alimento de pimento vermelho e chouriço antes de levar a fritar é um ataque cardíaco no prato, com garantia de uma tarde a padecer de refluxo gastro-esofágico, não é a sétima maravilha da gastronomia. Tapas é bom, não vou negar, mas a ciência de cortar um Manchego às fatias não se compara à de deixar no ponto um robalo do mar grelhado; um polvo à galega não supera um à Lagareiro e uns ovos rotos não têm, de longe, o equilíbrio de um bitoque. É que o bitoque, pelo menos, costuma vir com uma saladinha, e deste lado da fronteira falta uma boa dose de verde no prato.

Não me vou aqui armar em grande conhecedora da culinária espanhola, até porque de momento estou cingida à capital, mas, do quase mês que aqui passei, já deu para ver que Madrid faltou claramente à aula da dieta mediterrânica. Não sei, se calhar são os outros que estão errados, mas aqui, a noção de refeição completa é uma cerveja e uma sandes de calamares. Exacto. Vamos fritar lulas e metê-las dentro de um pão, isto é o nosso almoço. E vocês dizem-me “ah, mas ó Maruca, nós também temos sandes de panado! O que tens a dizer sobre isso?”. Eh pá, pois, tenho a dizer que não fazemos dela um típico almoço diário, mas sim aquela refeição de estou-há-cinco-horas-na-estrada-e-isto-é-o-mais-barato-desta-área-de-serviço,-vou-comer-uma-sopinha-antes-e-sempre-faço-uma-caminha. Além disso, a sandes de panado leva alface. Por isso não, não me venham dizer, caros espanhóis que tão bem me acolheram na vossa terra, que têm a melhor cozinha do mundo. Não têm. Quanto muito, têm a melhor fritadeira do mundo. Nem Portugal no Natal supera isto.

Vejamos o diário alimentar típico de um habitante de Madrid:

Desayuno – 7h

Hoy estava mal de la tripa, por isso achei mejor não comer torradas con aceite como é habitual. Bebi un chocolate caliente para acalmar el estômago e comi meia dúzia de churros. ¡Me senti mucho mejor! A minha nova colega, que é portuguesa, diz que não percebe como consigo comer churros logo por la mañana. Não percebo, que queria ela que eu comesse? Iogurte com fruta e flocos de aveia?! ¡Jajajajaja! Joder!

Comida – 15h

Decidi variar un poco, que já no puedo más con el bocadillo de jamón! Escolhi bocadillo de chorizo, estava muy bueno. Ainda tenia fome, por isso comi três croquetas: una de jamón con queso, otra de bacon e, como no comia berduras hace tiempo, una croqueta de espinacas! Que saludable soy!

La portuguesita disse-me que lhe apetecia um “peixinho grelhado”, nunca ouvi falar de tal cosa. Perguntei-lhe que tipo de frito era esse, se era como um filete. Disse-me que não era frito, que era uma forma de cozinhar onde põem el pescado numa grelha (?) e o deixam cocinar sobre el fuego (!) No comprendo.

Cena – 22h

Estive con mis compañeros después del trabajo a beber unas cañas y a comer aperitivos, por eso cuando cheguei a la casa, fiquei-me por umas patatas bravas al aioli. Tengo que dejarme de mayonesa! Pero es mi salsa favorita!… De postre, unas natillas caíram mesmo bien.

La portuguesa comeu una sopa, pero não sei que raio de sopa era aquela. Só legumes, tudo passado! Nem umas fatias de jamón, nem um ovo lá para dentro, nem um bacon crujiente para dar textura, nada! Estes portugueses no saben comer! Jajajajaja!

Pois é, caros leitores, a modos que é isto.

Comer fora nesta terra é uma aventura para as artérias. Por mais que saiba bem tapear e beber unas copas, chega uma altura que uma pessoa só quer um peixinho grelhado. Ou alguma coisa que não meta pimento vermelho. Ou uma tortilla sem patata. Omelete? Que és eso? Un huevo batido y cocinado en la frigideira? Como una tortilla pero sin patata?! Que coño me dices? Que sentido tiene no meter patata?! Me cago en la leche! Tienes que meter patata, madre que te parió!

Ai, caramba!…

Tirem-me a paella da frente e não me venham com merdas, porque não há cozinha como a portuguesa. E, a bem da verdade, não há melhor mesa do que aquela que tem a minha família e os meus amigos todos à volta… O que vale é que, graças ao bom Dionísio, um bom tinto é coisa que não falha nesta terra. Vou ali beber mais una copa de Rioja e sonhar com um peixinho grelhado ou com um bom arroz de marisco, a cheirar a coentros e a saber a mar. Isso sim, é de puta madre.

Fonte da imagem.

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