1. Esta crónica é sobre “A Melhor Juventude” e a absurda necessidade de justificarmos o porquê de falar de coisas datadas. Mais o segundo ponto, parece-me agora que hesito com os dedos tangentes às teclas.

2. Cheguei ao filme por uma amiga que, num ritual muito seu, vai revendo o filme ao longo dos anos com pessoas que lhe são queridas. Um filme como um pacto.

Vimos em duas noites ao ritmo dos dois DVD’s de três horas, mas podíamos ter visto todas as seis horas de uma só vez. Essa particularidade é importante: seis horas onde se acompanha uma história com prazer. E para ficar claro: não estamos no domínio dos filmes longos que exigem outra posição do espectador que não seja conceder respeito pelo que está a sentir e a atenção devida à vida daquelas personagens. Estamos longe dos nomes que nos vêm à cabeça quando se fala de desafios desta extensão (e que vamos adiando, pois há mil maneiras de fazermos boa figura): Béla Tarr, Claude Lanzmann ou Lav Diaz.

3. Voltar às coisas sem terreno parece-me fundamental. No cinema, e na arte em geral, há dois estados de graça à obra: a novidade e a velhice comemorativa.

Voltando ao meio interferimos com a ordem natural das coisas. Limpar o pó aos nomes pode ser um acto de vandalismo positivo.

4. Sobre o filme: de 1966 a 2003 seguimos a família Carati (com maior foco nos irmãos Matteo e Nicola), as pessoas que as suas personalidades bem distintas atraem, e a história de Itália, sempre tangencial ao centro da acção, mas fundamental na criação de profundidade das personagens através das suas escolhas: polícia ou manifestante; burguês ou pedreiro; idealista ou conformado.

De outra maneira: as cheias de Florença estão ao serviço de um reencontro e da aparição de Giulia; uma final do Mundial de Futebol e os seus festejos servem de contraste a uma cena de ruptura familiar; o assassinato de um Juiz serve para interrogar o espectador: “porque é que não fazes ideia deste escândalo?”. No entanto, o único facto histórico permeável ao filme é a luta das Brigadas Vermelhas.

5. Creio que as obras de arte que ficam no limbo temporal que tentei evidenciar são como os objectos do nosso quotidiano. Fundamentais, mas dificilmente alvos de louvação.

Teju Cole, num ensaio intitulado “Object Lesson” disserta sobre vários fotógrafos e maneiras de capturar situações de conflito. A certa altura debruça-se sobre as fotos, que sendo ilustrativas de determinada crise (militar, política, bélica), não contêm em si pessoas, mas uma mesa de jantar, copos, garfos, roupa.

A certa altura cita Proust: “Pensamos que já não amamos os nossos mortos por não nos lembrarmos deles, mas se, por acaso, damos de caras com uma luva velha, desfazemo-nos em lágrimas”.

6. Matteo e Nicola. Um é idealista, instável, e vive sempre a compensar um remorso que vai manchando todas as situações que lhe são agradáveis, afastando-o de tudo. O outro, inicialmente o mais leviano dos dois, segue um caminho complexo onde, sempre ponderado, desempenha o seu papel fazendo a coisa certa: sendo romântico, aventureiro, activista, pai, médico, filho.

Nicola é a personagem com quem nos queremos relacionar. Se aos vinte percebemos e apoiamos as suas decisões, aos quarenta ambicionamos tender para o mesmo lado. Matteo é o tipo que rouba o ecrã por ser bonito, problemático, violento e carente, e só oferece engajamento sentimental, porque toda a orquestração em redor das suas cenas principais é feita sem falhas. A última cena de Matteo, o nosso idealista mal fadado, é memorável:

(Ida, alguém?)

7. Entre os polos da consagração há muito tempo. Tudo no meio está à espera de ser encontrado.

8. “A Minha Juventude” vê-se então como um romance épico e condensado. Marco Tullio Giordana dá-nos a possibilidade de ver a vida de um grupo alargado de pessoas em seis horas, tudo desenrolado a um ritmo estável e apoiado na escrita inteligente de Sandro Petraglia e Stefano Rulli.

Todo este empreendimento é feito por detalhes domésticos. Fugindo sempre às possibilidades panfletárias, não há escolhas políticas, não há julgamentos injustos sobre os laços de sangue, não há uma moral a sair da manga. Há sim, luto, morte e abandono como em quarenta anos de vida de qualquer pessoa.

Mas todo o filme caminha, nunca em bicos de pés, mansamente para um desejo de reconciliação.

9.

10. Chegados aqui, talvez seja importante acabar num tom legível e informar-vos que o filme começa com Matteo, Nicola e os amigos a terminarem os exames da faculdade e a planearem uma longa viagem até à Noruega. Antes de a aventura começar, Matteo estilhaça os planos trazendo à baila Giorgia, criatura de olhos melancólicos por excelência, que é assim salva, momentaneamente, do manicómio onde foi deixada ao deus-dará pelos pais.

Ora, Giorgia é a nossa luva velha.

11. O que Teju Cole vê na opção formal de fazer daqueles objectos o centro da fotografia, podemos ver nós (extrapolando sempre, pois é nosso dever) no apontar o dedo ao filme que não é clássico, nem novidade, nem de culto: no meio da mansidão temos a nossa possibilidade de consolo.

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