Ah, os saldos, a correria desenfreada às peças de roupa que antes não precisava, mas agora compensam! Sob as luzes póstumas de um Natal cheio de contrassenso (diz a Percebes Estrangeiro e eu subscrevo), aventurei-me à procura de uma ou outra coisa nas lojas do costume e percebi o quão grande é o meu amor pelas compras online. E também como tão cedo não me apanham lá, nas ditas cujas.

O meu apreço por coisas belas dita que não consigo não ligar a moda. Mas porque sei que haverão sempre coisas bonitas, deixei de correr por qualquer peça que seja. Não há enfeite que justifique estacar numa fila de quarenta minutos. E não há, de todo, coisa que justifique entrar numa loja como quem entra num solário, num calor dos infernos que sufoca um ser vivo preparado para o inverno.

Cada vez que entro numa Zara, Mango, Pull&Bear, e outras que tais, sinto que estou a entrar numa discoteca. Entra-se com uma música sempre entre o pop da moda e um techno que eu julgo já ter ouvido, sim, num after no Europa às oito da manhã e em mau estado. Entra-se e é-se sugado – o ser, a vida, a alma, – para um clarão de uma luz branca que não é deste mundo, uma espécie de buraco negro invertido.

Nas discotecas pelo menos equilibram tudo com uma penumbra simpática para malta sensível. Ali não, é todo um exercício epiléptico que me faz querer ir embora mais rápido. Saio muitas vezes por falta de paciência.

Alguém que diga aos senhores que pensam nestas coisas que esses estudos sobre a música com ritmo e a claridade levarem à compra, hoje em dia, levam só mesmo a não querer ir às compras. Se  ali se pudesse dançar, eu ainda reconsiderava… mas olho para a malta que ali anda e já vi gente mais animada em alguns episódios de Walking Dead.

Cenário perfeito para um flash mob, sem dúvida. Podia-se na boa ter uma aulinha de fitness ali na Zara do Chiado, dançar zumba (para quem gosta) numa qualquer H&M. Para mim não dá, mas há aqui ideias inovadoras pessoal. Ideias inovadoras!

Entretanto, já uma miúda encontrou o que quer e vai para o provador. Agora, digam-me para que raio serve aquela placa que fazem questão de nos dar senão haverão consequências! A sério, para quê? Não chega contar as peças? Se as coisas têm detectores incorporados que apitam (e se eles apitam!) quando passamos ao pé da porta, qual é a cena das placas?

Outra coisa que deveriam pensar, se aceitarem mais uma sugestãozita, é mudarem-me aqueles espelhos ou aquelas luzes disformes, porque são elas. Recuso-me a achar que sou eu, que visto um XS e ainda assim me sinto um pequeno Quasimodo no provador. Quando eu vou experimentar algo, eu não quero ver em detalhe quantas são as razões para uma coisa me cair mal. Eu muito honestamente só queria constatar que uma peça é um no no, sem ter de levar com aqueles espelhos iluminados que me fazem ter vontade de andar de pijama todo o dia e para todo o sempre.

Last, but not least, depois da sauna e da discoteca, de ser empurrada porque posso estar a ver aquela única peça de uma pessoa que está cheia de pressa para comprar merdas, agarrei a placa que me dá acesso exclusivo ao faroeste: bolas de cotão rebolam, solitárias, por aquele deserto onde a limpeza é procurada por coisas que não fez. De onde é que tudo aquilo vem eu nem quero saber. Uma pessoa ainda acha que com sorte aquilo não mexe, mas depois tem de se despir e vestir. E mexe.

Eu gosto mesmo de andar com coisas bonitas, mas não. Assim, não.

 

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