Mais uma vez o mundo da internet explodiu de indignação, quando o cantor The Weeknd se disse chocado ao ver que a loja online da H&M expunha uma camisola que dizia «Coolest Monkey in the Jungle» numa criança negra. O caos, o horror, um ultraje!

Eu que abri a notícia de manhã ainda na cama, se calhar estava um bocadinho lenta, mas parece que devia ter visto um macaco e era mesmo só uma criança como outra qualquer. Há pessoas que parecem achar que é uma criança diferente e indignam-se como tal. Eu acho que elas são possivelmente idiotas e, ao mesmo tempo que carabinas se alinham para me abater pela minha ignorância, desrespeito, falta de sensibilidade e decoro – nem digo que não –, eis alguns pontos que me passaram pela cabeça:

1. Quem é que devia ter pesquisado sobre a marca antes de trabalhar com ela, quem é, quem é?

A H&M não é desconhecida das polémicas, caro senhor The Weeknd, e se é para defender os direitos humanos, vamos defendê-los bem então. Gritamos porque um menino vestiu uma camisola que nos parece mal, mas não gritamos depois quando trabalhamos com a H&M ou andamos a comprar roupas que são baratas porque são mal pagas a quem as faz no Bangladesh, Myanmar, Cambodja, etc. E isso é um facto muito bem conhecido da H&M, só que já é um bocadinho mais chato de falar, porque gostamos de ir à H&M comprar muitas coisas com pouco dinheiro. Pouco para nós, porque dava jeito às senhoras do Bangladesh (que são na maioria senhoras, women empowerment ao rubro!).

Pois é, em 2010 houve aquela fábrica que colapsou no Cambodja com 8000 pessoas já por si malnutridas, a trabalhar muitas horas num calor extremo. Era uma das fábricas que trabalhavam para a H&M, entre outras marcas, e que têm até um nome: sweatshops. Depois em 2013 foi no Bangladesh, sítio privilegiado pela H&M, caiu Rana Plaza e morreram mais de 1100 das pessoas que nos fazem as roupas. Também já foram acusados de trabalho infantil, tendo miúdas de 14 anos a trabalhar 12 horas por dia.

Tudo isto, caro senhor The Weeknd, é a H&M, Hennes & Mauritz AB, multimilionária, a segunda maior retalhista do mundo, aquela que todos nós financiamos ao comprar aquela roupa mesmo baratinha.

2. Como é que a H&M permitiu! Ai, espera, a H&M tem 148 000 pessoas empregadas.

Para que a camisola do macaquinho tivesse saído à rua houve um designer que a fez (e morte ao designer que não antecipou que há crianças negras que a podiam vestir), aprovada provavelmente por um chefe (morte ao chefe!).

Depois lá foi ela para produção, onde antes de ser vestida numa criança negra, era só uma camisola com uma mensagem daquelas que se escolhem porque têm mesmo que ver com a pessoa e toda a gente sabe que falam de valores importantes para a sociedade, como «Kiss and Tell», «I Will Only Watch One Episode», «Nobody’s Babe», «You’re (Basically) Always on My Mind», ou «Free Spirit».

Na fábrica foi vista (por senhores da fábrica que deveriam falecer) e, depois, no armazém (esses também), e chegou o momento de ser fotografada para poder ser colocada online. Alguém seleccionou os modelos (também é para ir), que pode ou não ser a mesma pessoa que disse ao fotógrafo (que deve morrer por não se ter recusado a tirar a foto) para fotografar o menino com aquela camisola em específico.

Tiradas as fotos alguém as ajustou e editou para entrarem na loja (dois designers já foram) e outro ser que não merece viver a colocou de facto online (bang!), com a supervisão de alguém que por poder depositar confiança nos empregados, poderá talvez não ter ido confirmar todos os produtos dos milhares que são metidos na loja todos os meses (mais um faz pelo menos dez).

Ainda que a cadeia de funcionamento não desculpe que possa ter havido uma falha, que eu nem acho que exista neste caso, em princípio estamos a falar de pessoas, várias, e que provavelmente têm poder de decisão limitado e pouco que ver com quem faz o negócio. Quando perguntamos quem «permitiu», é destas pessoas que estamos a falar. De qualquer um de nós, em suma.

3. Apedrejamentos em praça pública, adoro. Super na moda.

Sempre que surge uma polémica destas não consigo não sentir que estamos num apedrejamento em digital praça pública. Gera-se tal hype que eu desconfio que a vontade seja mais a de afundar uma pessoa ou marca por um erro do que mudar um problema do mundo. Porque ainda que falar de problemas da sociedade seja fulcral, vociferar na internet não se tem provado muito eficaz em criar um mundo melhor.

Talvez por isso, há umas centenas de anos atrás, se tenha percebido que o apedrejamento não faz sentido – bom, se do mundo que queremos civilizado estivermos a falar –, torna-se igualmente desumano e não contribui com grande coisa. A não ser com muito medo para todas as pessoas da cadeia supracitada, e de outras, por viverem na possibilidade e inevitabilidade do erro.

4. Quem diz é quem é

O racismo daquela foto está essencialmente na cabeça de quem o vê. Eu não vejo um menino negro, eu vejo uma criança, que sendo traquina, pode muito bem ser o coolest monkey in the jungle, seja ele branco, preto, amarelo, castanho, vermelho ou azul-turquesa. Chamar a uma subtileza de interpretação racismo é muito perigoso, porque em primeiro lugar estamos a meter tudo num saco grande, fundo, com uma história imensa e problemas que ultrapassam a compra de camisolas. Dá-se a este assunto a importância que não tem no mundo real do racismo.

Este suposto racismo, não tem mesmo nada que ver com o racismo de alguém que é achincalhado, que é visto como perigoso pela cor, que é mais susceptível de ir preso ou de não conseguir um trabalho. São coisas de uma gravidade muito, mas muito maior do que este problema da internet, e que não estamos a resolver ao censurar uma foto.

E depois de apagado, está resolvido o problema? Evidentemente que não. O que aconteceu foi só mesmo que confundimos causas sociais com decoro, e o decoro, que pode ser francamente castrador, é também fingimento.

Sinal da mudança dos tempos será o dia em que, ao vermos uma foto destas, não vejamos senão uma criança e nos pareça abjecto que associar negro a macaco nos tenha sequer passado pela cabeça. Da mesma forma que hoje é impensável associar mulher a dona de casa.

Só espero que aquele menino ainda venha a ganhar qualquer coisita com isto, coitadinho, que parecia estar com fome. #somostodosmacacos

camisola da H&M

 

 

 

 

 

 

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