marinouïe é de origem francesa e espanhola, faz música e esteve neste sábado que passou a mostrar o que gosta de fazer no Bar Irreal, que fica ali entre a fauna estrangeira do Camões e a fauna adolescente de Santos. Não sabemos o nome que lhe deram ao nascer, mas a miúda toca acordeão, sussurra músicas que escreveu em viagens e não tem medo de ser tudo aquilo que hoje desvalorizamos: lenta, atrapalhada, optimista, honesta.

O evento no facebook informava o público de que marinouïe é um projecto de canção autoral, referia paisagens interiores e outras coisas vagas que nos dizem: não te conseguimos bem explicar o que isto é. Tudo bem, Ostradamus percebe. Ou melhor, percebeu depois de o concerto acabar, depois de marinouïe ter dado um segundo concerto em três músicas para alguém que chegou atrasado, depois de nos propor vir tocar à nossa sala antes de ir para outras paragens (não aconteceu, mas vai acontecer e estão convidados, que eu estou in a giving mood).

É que a miúda foi tudo de bom. Uma voz suave, umas mãos que ainda não domaram totalmente o acordeão, uma falta de medo que iluminou uma plateia de meia dúzia de gatos pingados que nem sabiam bem o que estavam a ver. Foi um milagre de sábado à noite e, nestes tempos de febre e fogo, os milagres vêm assim, pequeninos, grandes o suficiente para encher apenas um bar pouco maior do que uma sala de estar.

marinouïe levou-nos a sítios onde nunca fomos e também nunca achámos que queríamos ir. O encontro com a poeta boliviana e a canção sobre a Pachamama, o poema pré-colombiano que encontrou à lupa num bilhete de autocarro e que canta com imensa certeza do que está a dizer. Uma versão de Arnaldo Antunes que fica bem só com a voz dela e um poema que noutro sítio qualquer traria ao de cima o cínico em todos nós. Mas ali não. Tenhamos a honestidade intelectual de dizer que não é preciso estarmos sempre à procura da falha. Tenhamos a honestidade intelectual de encontrar a falha e ver a luz que dela vem.

Sábado à noite foi bom de fio a pavio. marinouïei já salvou 2018. Quando a gente vê um milagre, a gente cala e consente.

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