Este artigo começa com a história de um adepto de outro clube e o sentido disso é pouco claro — até para mim. Reza a lenda que um miúdo de 16 anos que vivia no prédio do Bobby Robson, uma vez, encontrando-o no elevador, lhe terá mostrado, exaltado — com recurso a papel com tácticas e estatísticas e tudo — como ridículo era ele teimar em deixar o Domingos no banco. Esse miúdo chamava-se André Villas-Boas e, por isso, pôde explicar tudo isso em inglês o que ajudou certamente. A táctica avançou para o bolso do Robson, o Domingos viria a tornar-se um dos mais interessantes avançados do futebol português, o André é — ou era? — um dos mais conhecidos treinadores do futebol mundial, mas a mim, o que me interessa, é aquele miúdo de 16 anos, transtornado, no elevador, como se a vida —dele e do clube — dependesse daquela conversa.

Quem me contou esta história pela primeira vez — que tive gosto de ler há pouco tempo aqui — foi o meu médico, o Professor Cunha Monteiro, ilustre portista, professor universitário, etc. Isto é, não há vez que eu visite o Professor Cunha Monteiro que não passemos grande parte da consulta a falar de bola. Podíamos falar de tudo, mas falamos de bola. E eu, que esta época disse a mim mesmo que não queria falar mais sobre o assunto, vou fazer, pelo respeito que lhe tenho e porque sou doente, o que faço sempre, que é assumir que estava a mentir. E falar.

1994

Não se sabe como se começa a gostar de futebol. Quando somos pequeninos, o nosso pai ou avô ou tio incute-nos esse bichinho, vão-nos perguntando de que clube somos e quando começamos a falar lá vem um «FiFica» ou um «S-O-B!» que deixa o pai, o avô ou tio de queixo caído. Em 1994 eu tinha 5 anos e não me lembro especificamente de os ter — o que eu me lembro é do Rui Costa. O Benfica campeão nesse ano, o Benfica do João Vieira Pinto e dos 6-3 ao Sporting (primeira nota 10 no jornal A Bola), apresentou-me aquele que, para mim, foi sempre o meu ídolo no futebol. Rui Manuel César Costa. O passe do Rui para o Isaías, por exemplo, que nas palavras do Ricardo (aos 4:40), é a coisa mais bonita que alguma vez vou ver na vida – que arrepio agora. Mas o ano de 1994 – o primeiro Mundial que me lembro de ver, com o meu avô, na televisão, logo nesse mesmo Verão – apresentou-me uma coisa muito pior. O amor por um clube. E isso, meus amigos, tem consequências.

1999

Algumas delas, más: Pesaresi, Machairidis, Bossio, Dudic, Tote, Pringle, Uribe, Escalona. Sim, o Benfica teve uma bela dose de cocó com pernas usando chuteiras. Nunca enxovalhei nenhum no estádio, abri excepção certa vez para o estrábico defesa direito Luís Filipe, não me orgulho, não foi bonito. Outras, simplesmente irracionais. Em 1999, o Benfica estava a perder por 6 com o Celta de Vigo, o Mostovoi (campeão pelo Benfica em 94!) marcou outro e eu acreditei que, se naquela altura marcássemos um golo, ainda podíamos dar a volta. Eu disse que era doente.

2010

Outras ainda há que, simplesmente, nos fazem gostar de futebol acima de tudo. A equipa campeã nacional em 2010 era assim. Perfume, toque de bola, jogo pelo jogo, três toques quando bastava um – e, desenganem-se, isso é que é futebol, não somos nórdicos, aprendemos a jogar na rua e nos recreios e nos clubes com pelado, aprendemos a fintar antes de passar. Essa equipa, que jogava sob a batuta Daquele Cujo Cabelo Não Deve Ser Mencionado, que ganhou ao Everton 5-0 em casa e 2-0 em Liverpool com Eusébio a ser aplaudido de pé por mais de trinta mil alminhas, fez-me ter outra vez a segurança necessária para comprar o jornal e, num gesto muito típico de qualquer benfiquista, folgadamente o desfolhar na presença de, se tudo correr pelo melhor, variados sportinguistas. Aqui, nas imagens sempre arrepiantes do Guilherme Cabral ou aqui, na poesia de Pablo Aimar.

2011

Há uma parede no túnel que dá acesso à entrada principal do estádio que diz «Bem-vindos ao Inferno da Luz». Quando passo por aí, sinto-nos invencíveis, ainda que o terceiro anel já não seja o que era e os 120 000 de outrora sejam apenas algo que a minha imaginação tenta alcançar. Por isso, em 2011, quando o Futebol Clube do Porto se sagrou campeão no Estádio da Luz, na Catedral, no nosso Inferno Vermelho, eu chorei. Chorei por mais que tristeza. Chorei porque tinham entrado no nosso espaço sagrado e pavoneavam-se entre a rega e a luz que foi cortada. Chorei porque o achava impossível e chorei acima de tudo porque podia e não o saberia expressar de outra forma. Como agora. E por isso, fico-me por aqui. Ser benfiquista são também, por vezes, essas consequências.

3 de Janeiro de 2018

O que me traz à passada quarta-feira. Comprámos bilhetes que dissemos que não íamos comprar mais esta época, levámos amigos, bebemos as mesmas cervejas de sempre e comemos na mesma tasca. Fizemos o caminho até ao relvado pelo mesmo caminho. Vimos a águia e cantámos papoilas saltitantes. Enxovalhámos todos e cada um dos jogadores de verde – mais o Fábio, porque podíamos –, chamámos nomes a uns quantos indivíduos numa jaula e insultámos docemente a mãe do senhor do apito. Sofremos o jogo quase todo e explodimos no fim, cumprimentando pessoas que nunca antes víramos. E, ainda que esta época o setôr Rui não acerte uma, o Presidente Mendes ponha a jogar quem quiser e até o Marega tenha já marcado 14 golos, o Benfica, porque é o Benfica, continuará, porque tem adeptos e um estádio e uma chama que se diz imensa.

Conclusão ou Carta a um Pequenote

Pequeno adepto que vi chorar agarrado a um cachecol. Spoiler alert. Estás em maus lençóis. É minha obrigação alertar-te desde já que não vai ser fácil. Esta parte irracional das nossas vidas ocupa um espaço muito grande que, todos os fins-de-semana, nos faz deixar coisas por fazer e pessoas com quem gostaríamos ou deveríamos de estar para nos focarmos nela – é assim com as coisas irracionais e tu não vais conseguir explicar porquê, pelo que terás de o aceitar. Vão dizer-te que não entendem, que são 22 gajos a correr atrás de uma bola ou, a pior de todas, que é SÓ futebol. Eles não entendem porque, a bem da verdade, não há nada para entender. Como dizia o Vinicius, «Misturo poesia com cachaça e acabo discutindo futebol». Por isso, lembra-te do André do elevador, exaltado. E pensa que, sejas o que fores, vais carregar isso contigo a vida toda. Ainda bem. Um abraço.

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