Donald Trump é o vilão de telenovela que o mundo não pediu e em quem apenas (parte) dos americanos votaram. Alguém que descaradamente desonra todos os códigos de honra, que não constituindo lei costumavam dignificar o papel daquele que é considerado «O» líder político. Em 2017, rebentei a bolha e o que encontrei deixou-me confusa. Este foi o meu manual de defesa para entender um pouco do que se passava na Trumplândia.

O QUE VI?

The Daily Show with Trevor Noah (Comedy Central)

Em 2015, Trevor Noah sucedeu ao reinado do icónico Jon Stewart. Atento às divisões raciais nos EUA, aspecto que se revelaria no ano seguinte um dos grandes catalisadores da campanha de Trump, Stewart seleccionou pessoalmente o sul-africano, abrindo um maior espaço de reflexão para assuntos como a violência policial, o sistema prisional e a (falta) de equidade entre classes, sob o ponto de vista de um comediante multirracial e não estadunidense. Para tal pesou certamente o material cómico de Noah, centrado na sua blackness e vivência do apartheid, enquanto filho de pai branco e mãe negra ‒ leiam a autobiografia «Born a Crime» (na lista de leitura de verão de Bill Gates) e espreitem o documentário «You Laugh But It’s True» (2011), sobre a a concepção do seu primeiro one man show.

A receita é a mesma de há quase duas décadas: sátira política, ilustrada por excertos de canais de notícias (muito material da Fox News), que é pontuada por peças de «correspondentes» e visitas de celebridades/autores/figuras políticas. Os tiques totalitaristas de Trump não são desconhecidos de Noah, habituado às excentricidades do recentemente reformado Jacob Zuma. O apresentador brilha especialmente nas entrevistas, sendo-lhe fácil criar empatia ou mostrar de forma inteligente a estupidez de alguns dos convidados (Olá, Tomi Lahren! ).

Os episódios são emitidos de 2ª a 5ª feira nos EUA, portanto, em Portugal, de 3ª a 6ª feira (a não ser que sejam madrugadores), através do site do Comedy Central (há que ser pirata e usar um VPN com morada nos EUA); na RTP1, apresentado na sua «versão global». Segmentos no canal oficial de Youtube.


The Late Show with Stephen Colbert (CBS)

Fallon afagou o quase-cabelo de Trump e os americanos não o perdoaram (link). Depois de anos de jogos de mímica, coreografias e playbacks com celebridades, o «Tonight Show» foi ultrapassado pelo «Late Show», comandado por Stephen Colbert. Durante anos, o humorista adoptou no «Daily Show» e «The Colbert Report» um alter-ego conservador criado à imagem de apresentadores da Fox News, como Bill O’Reilly («Papa Bear») ou Sean Hannity.  Essa personagem, no entanto, insistiu em intrometer-se na sua relação com o público, perturbando os primeiros meses após assumir o legado de Letterman. Mas Trump aconteceu e a audiência passou a exigir mais do que gargalhadas fáceis feitas à custa de histórias começadas por «Um homem na China…» ou «Um casal no Texas…». As eleições deram balanço a Colbert — todas as noites o comediante iça as sobrancelhas e oferece-nos monólogos de 10 minutos, que refletem o seu treino em teatro de improviso e em sátira política. Um verdadeiro cavalheiro sulista, que se recusa a baixar a guarda face a um ciclo noticioso exaustivo (link).

Episódios emitidos de 2ª à 6ª feira na Sic Radical (cerca de 1 ou 2 dias de diferença em relação à emissão nos EUA), episódio e segmentos disponíveis no site da CBS (VPN americano necessário) e canal oficial de Youtube.


 Last Week Tonight with John Oliver (HBO)

Já adivinharam o padrão? John Oliver é outro comediante com um diploma do «Daily Show»; outra prova da qualidade de caça-talentos de Jon Stewart. O programa segue um formato semelhante, mas focado num segmento principal de cerca de 20 minutos que é na verdade jornalismo de investigação disfarçado de comédia. Qual é o grande orgulho de Oliver em ser um empregado da HBO? Poder gritar todos os domingos um chorrilho de fucks.

Emitido aos domingos nos EUA e transmitido algures na grelha da RTP3. Alguns segmentos estão disponíveis no canal oficial de Youtube.


GPS (CNN) e OLHAR O MUNDO (RTP3)

Ambos os programas se focam no cenário geopolítico e diplomático, seguindo um formato mais ou menos semelhante, que recorre ao comentário de académicos e a entrevistas a líderes políticos internacionais, para analisar os principais acontecimentos mundiais. O programa da CNN é conduzido por Fareed Zakaria, que no segmento «Farreed’s Take» toma uma posição pessoal sobre o assunto mais relevante da semana, momento revelador de alguns valores tipicamente americanos, contrastantes com a nossa visão europeia dos assuntos.

Episódios de ambos os programas são emitidos na grelha da RTP3.

O QUE OUVI?

Crooked Media

Jon Fraveau, Jon Lovett e Tommy Vietor poderiam ter formado uma boysband de sucesso ‒temos o líder carismático, o rebelde e o rapaz que apresentarias aos pais ‒, mas em vez disso fizeram SÓ parte do staff da administração Obama. Ganharam o gosto pelos podcasts durante as últimas eleições, acompanhando os desenvolvimentos da campanha em «Keepin’ It 1600». Frustrados com o fraco desempenho dos democratas e sem vontade de ficarem de braços cruzados perante as atrocidades do Grande Monstro Laranja, juntaram-se e fundaram a Crooked Media. A missão é a de criar uma plataforma para discutir política sem bullshit, enquanto se afirmam como a alternativa liberal aos Breitbart da vida. O podcast-estrela é o «Pod Save America», tendo-se seguido o «Pod Save the World», sobre política externa e o «Pod Save the People», sobre direitos civis; e a família continua a crescer. O conteúdo é altamente viciante, culpa da administração Trump, que produz enredos mais complexos do que as novelas das 9, mas também do magnetismo dos apresentadores. As mensagens são claras, afirmativas e concretas, não tivesse este pessoal sido porta-voz e escritor de discursos políticos. O objetivo é inspirar a ação e matar a inércia que permitiu a ascensão dos conservadores: Candidatem-se! Telefonem aos vossos representantes! Vão a hall meetings!, etc. As antigas relações com Washington permitem-lhes ter acesso a importantes figuras do campo político, sejam estas jornalistas, académicos ou senadores, o que em muito enriquece os episódios.

Os podcasts da família Crooked Media podem ser encontrados no site, Spotify ou iTunes.


The Daily (The New York Times)

«The Daily» é a montra sonora para a redação do jornal The New York Times. De 2ª a 6ª feira, pelo fim da manhã em Portugal, Michael Barbaro explica a atualidade norte-americana de uma forma altamente eficaz, através de peças de 15-20 min, elegantemente produzidas. Numa conversa entre Barbaro e os colegas, contam-se histórias com início, meio e fim. Uma estratégia interessante do jornal, para humanizar os seus jornalistas, numa época de frequentes acusações de fake news.

Todos os episódios disponíveis no site.

 O QUE LI?

«Sobre Tirania. Vinte Lições do Século XX», por Timothy Snyder (Relógio D’Água)

Snyder é historiador e professor na Universidade de Yale, focado no estudo da ascensão e queda de regimes totalitaristas europeus, nas décadas de 1930-40. Em 20 capítulos, o autor explica, de uma forma prática, como deveremos agir enquanto cidadãos para protegermos as nossas liberdades pessoais. Cada lição é ilustrada com exemplos retirados da História e de alguns momentos mais recentes, em particular da campanha eleitoral de 2016.

Cursos Edx

Para quem não conhece o Edx é uma plataforma de cursos e-learning gratuitos providenciados por algumas das melhores universidades do mundo. Atentos aos sinais dos tempos, algumas destas instituições organizaram cursos para fazer face às campanhas de desinformação de Trump.

Harvard

United States Health Policy

American Government

Universidade do Michigan

The Future of Obamacare: Repeal, Repair, or Replace?

Fake News, Facts and Alternative Facts

Democratic to Authoritarian Rule

Stand up for Science: Practical Approaches to Discussing Science that Matters

Davidson

The Story of Fake News

Universidade da Pennsylvania

Top 10 Social Issues for the President’s First 100 Days

The Atlantic, Foreign Policy, The New York Times, The New Yorker

Assinar publicações é apoiar um sistema de vigilância ativo dos regimes democráticos. Para quem não tem disponibilidade, poderá sempre colocar um «gosto» nas respetivas páginas de Facebook. Regra geral, as histórias completas estão também disponíveis nos sites (em alguns casos com um limite mensal de clicks). The Atlantic , The New Yorker e o The New York Times têm todos canais de Youtube com resumos, muitas vezes infográficos, das suas principais histórias.

Fonte da Imagem

 

NEWSLETTER

Gostas de ler os nossos artigos?

Então subscreve a nossa newsletter e fica a saber que temas estão a alimentar a peixeirada aqui por estes lados.

Já sabes, prometemos somente dizer tudo o que nos apetece!

Subscrição bem sucedida!

Pin It on Pinterest