Ia escrever um texto sobre como os anos passam e eu continuo sem gostar da passagem de ano. Queria falar do meu ligeiro ódio de estimação ao destrambelho, à avidez, àquela dose bem servida de vergonha alheia e desespero porque fica toda a gente louca e é o tudo ou nada: parece que se aquela noite não for incrível, o ano civil que começa será necessariamente uma merda. Mas convenhamos: se o ano vindouro fosse um espelho daquela noite, a verdade é que seria passado na casa-de-banho, a tentar manter o estômago no interior do corpo, num ciclo interminável de vómito intercalado com juras de nunca mais tocar numa gota de álcool. Tudo isto com uma pneumonia à mistura, porque as “roupas” disponíveis para esta altura não são mais que apliques variados e abundantes, numa quantidade infinitesimal de tecido. Alguém avise o grupo Inditex de que Portugal não é o Rio de Janeiro (e nem todos queremos correr o risco de ser um trigger ambulante de ataques de epilepsia).

Pensei dizer que outra coisa que me incomoda profundamente são os preços exorbitantes de tudo. Adoro os indignados do Natal, que o pintam como sendo uma época de falsidade e consumismo sem valores, mas não vejo ninguém incomodado com a passagem de ano. E o que é a passagem de ano senão estar obrigatoriamente “feliz e agradecido” e gastar demasiado dinheiro num modelito que dificilmente se voltará a vestir porque epilepsia/ frio para o Inverno mas demasiado quente para o Verão/ arruinado pelo vómito/ não gosto muito mas tenho de levar alguma coisa para vestir na festa; gastar demasiado dinheiro para jantar uma qualquer receita manhosa de bacalhau espiritual com lampreia de ovos e pudim para a sobremesa; gastar demasiado dinheiro para entrar às 23h30 na discoteca ou convento da moda com direito a 2 bebidas e águas à parte ou gastar demasiado dinheiro para ir para um qualquer destino exótico-longínquo onde acaba por se gastar demasiado dinheiro apenas porque é a passagem de ano e como em qualquer parte do mundo, tudo fica estupidamente caro?

Claro que se pode optar pela versão low cost. É tão giro passar a última noite do ano ensardinhado numa carruagem de metro ou comboio rumo ao Terreiro do Paço, para ensardinhadamente assistir a um concerto gratuito de José Cid/ Delfins/ Xutos e Pontapés seguido de fogo de artifício, enquanto cai aquela chuva molha parvos combinada com a humidade vinda do rio que ensopa devagarinho toda a assistência até estar tudo com ar de fim de noite ainda no início da mesma. Depois, volta-se para casa na mesma lata de sardinhas em que se chegou à festa, mas é tudo incrível porque é ano novo e estamos super contentes, woahoo! Andar apertadinho nos transportes para ir trabalhar é que já é inadmissível, uma vergonha, um aborrecimento, uma chatice.

Tinha a intenção de discorrer sobre como sempre considerei a passagem de ano uma noite de gente frustrada. Não necessariamente frustrada com a vida, mas com a época em si. A verdade é que começa tudo a fazer balanços e a perceber que não conseguiu poupar o que tinha estabelecido, perder os quilos que tinha definido, fazer as 5 viagens planeadas ou abandonar o emprego que odeia. No geral, mesmo que tenhamos atingido coisas incríveis no ano que cessa, tendemos a olhar à volta e sentir que o ano passou e não fizemos nada de jeito. E é aqui que uma grande parte das pessoas entra naquela espiral esquizofrénica de sou uma merda/ para o ano é que vai ser/ agora é que é/ vamos lá entrar com o pé direito/ isto é incrível pessoaaaaal!

Ia escrever um texto sobre como os anos passam e eu continuo sem gostar da passagem de ano mas comecei a escrevê-lo e pareceu-me parvo continuar a incomodar-me com esta noite. A verdade é que sou uma hipócrita. Não sou de fazer listas nem resoluções e detesto passas, mas não deixo de comer as 12, enquanto peço os 12 desejos. E o que é que há de mau em dar um beijo e um abraço a quem gostamos, ao bater da meia-noite? Acho que o que sempre mais me incomodou foi a pressão e a expectativa impostas, mas a verdade é que não tenho de me incomodar com isto. Ninguém me obriga a enfiar-me em multidões e com o que o povo faz, vivo eu bem. Posso estar tranquila, serena, divertida, numa festa onde conheço toda a gente e onde nos divertimos a sério celebrando o facto de continuarmos mais um ano nas vidas uns dos outros.

Os anos passam e não é que agora goste da passagem de ano, mas a partir deste momento abandono oficialmente o meu ódio de estimação pela data. Porque os dias passam demasiado depressa, não temos tempo de parar para pensar e talvez seja bom ter uma altura em que nos obrigamos a isso. Porque se calhar para algumas pessoas foi o pior ano de sempre e é reconfortante sentir que está prestes a acabar e ter esperança de que o que aí vem será melhor. Porque para outras foi um ano incrível e estão genuinamente agradecidas, com vontade de festejar feitas malucas tudo o que a vida lhes deu. Porque é uma noite que posso escolher como e com quem passar, sem me incomodar com o que os outros fazem. E porque a verdade é que há muitas coisas mais interessantes e menos mainstream para odiar do que a noite do revelhão. Sejam felizes, ou não. Façam o que vos apetecer, vivam e deixem viver. Bom 2018.

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