Este artigo não é para meninos. É para quem acompanha os cereais de pequeno-almoço com spoilers e tem um histórico no computador do escritório… duvidoso? Não, diferente! É para quem cancela fins-de-semanas e passa-os sem se pentear e vestido com roupas de trazer-por-casa. Senhores! Isto é material de leitura para quem manifesta sintomas de Efeito Fincher, um transtorno singular que ataca sempre que um novo trabalho de, lá está, David Fincher é estreado. O último culpado‒ « Mindhunter ».

Desenvolvido para televisão por Joe Penhall, o enredo e personagens principais são vagamente baseadas no livro homónimo de John Douglas, o «pai» do criminal profilling. Na época pós-Hoover, Holden Ford (Jonathan Groff), um jovem instrutor de técnicas de negociação de reféns no FBI, frustrado com o seu desempenho e limitações da psicologia criminal da época, envolve-se na génese de uma nova abordagem em investigação policial. Movido pela curiosidade, o agente envereda por um atalho que, embora rudimentar, foi revolucionário para 1978: entrevistar criminosos violentos encarcerados. Sem ironia, o fetiche do público por serial killers continua bem vivo, assim como o talento de Fincher em usá-los enquanto ferramenta de análise da condição humana, não nos esqueçamos de «Se7en», «Zodiac» e «Girl with the Dragon Tattoo».

Pessoas em salas a conversar

É desta forma que «Mindhunter» nos é apresentado. O ritmo dos episódios introdutórios poderá convidar a alguma paciência, mas o espetador sobrevivente às quase 3 horas da obra fincheriana «Zodiac» encontrará de certo magia nos longos diálogos, que vivem ao jeito de cenas de teatro. Além disto, acrescenta-se que o protagonista é interpretado por um veterano da Broadway. Este estilo só é permitido porque o formato streaming não se deixa condicionar pela exigência constante de intervalos publicitários, como sucede na televisão tradicional. Mas coloca-se a questão– como transformar um argumento pesado em entretenimento para gente moderna com limitada capacidade de concentração? Respeitando a sua inteligência, ao desafiar o papel passivo que normalmente lhe é imposto, e recorrendo a técnicas de filmagem e edição que transfiguram simples conversas em aceleradas perseguições de automóveis. Ora veja-se o trabalho do Mestre na cena de abertura de «A Rede Social», em que Jesse Eisenberg e Rooney Mara metralham entre si falas ditadas por Aaron Sorkin.

O espectador é para ser tratado com muito r-e-s-p-e-i-t-i-n-h-o

É o próprio chef Fincher a admitir que actualmente segue uma receita em que os ingredientes som e imagem são misturados numa igual proporção de 25 %. Já os restantes 50 % pertencem ao espectador, a quem cabe a responsabilidade de completar os aparentes «vazios» das suas obras. É nestas áreas cinzentas que mergulhamos, na tentativa de interpretar o que não nos é explicitamente mostrado, e que no final acabamos por preencher com o nosso imaginário, conduzindo a que a experiência de visionamento seja mais pessoal e, assim, mais significativa. É um pouco como tentar ler as letras de uma canção da banda The XX, que pelo seu carácter vago, vivem mais tempo connosco, permitindo a descoberta de detalhes líricos e sonoros, muitas vezes, em revisitas distantes no tempo. Em Fincher, este aspecto ilusório é o resultado de um «descascar», sucessivo da interpretação do elenco, atingido através de um trabalho kubrickiano de repetição da filmagem de cada cena, em alguns casos, dezenas de vezes. Assim, o produto final é arejado e tudo o que consta neste é extremamente específico, o que se reflecte, por exemplo, na linguagem corporal dos actores– Fincher notoriamente não gosta que pestanejem ou que acentuem o final de cada frase.

Em «Mindhunter», a atenção do espectador é reclamada pelos silêncios, cheios pelas microexpressões e olhares prolongados dos actores, em especial de Groff; referências cruzadas entre episódios, que podem nem ser verbalmente citadas– a namorada de Holden ensina-o a recriar empatia mimetizando linguagem corporal, uma técnica que o agente adopta vários episódios depois num interrogatório– e cenas que aparentemente não contribuem para o avançar da história– como as sequências da Professora Carr,  em que alimenta com conservas de atum um gato invisível, e as referências ao assassino BTK– e descrições detalhadas de crimes violentos.

 

Deus está nos detalhes, Fincher está nos pormenores

Efeitos especiais que contam histórias

Sem olharmos às questões temáticas, «True Detective» e «Mindhunter» partilham um tom marcadamente atmosférico. Enquanto que Fukunaga recorreu ao filme tradicional e a uma escolha cuidada dos sets de filmagem (elementos industriais que contrastavam com as paisagens pantanosas do Louisiana) para criar uma textura visual rica, Fincher prefere usar câmaras digitais, que lhe permitem economizar tempo e obter mais material de produção, bem como manipular a imagem posteriormente. Sempre ao serviço da história. «O estranho caso de Benjamin Button» e os irmãos Winklevoss em «A Rede Social», a cena final de «Fight Club», ou mesmo o seu trabalho publicitário e em vídeos musicais, são testemunhas do seu enamoramento por estas ferramentas. Na maioria dos casos, os resultados são praticamente imperceptíveis– esguichos de sangue em «Gone Girl», a cabeça de Rooney Mara no corpo de um duplo na perseguição final de «Girl with the Dragon Tattoo» ou a silhueta de São Francisco em «Zodiac»– que absorvemos inconscientemente e imprimem credibilidade a estas obras.

Em «Mindhunter» a manipulação digital foi usada não só na correcção de detalhes históricos e adição de pormenores, como aviões, árvores ou relvados, mas também na criação de uma paleta de cores baseada em verdes e amarelos pouco saturados. Por exemplo, a criação da luz amarelo-tabaco nas cenas exteriores decorridas no estado de Georgia ou Norte da Califórnia, ou o contraste, também com tons de amarelo, entre os cenários interiores e exteriores, foram aspectos trabalhados em pós-produção.

 

Recriar solidão com luz

Para além da manipulação digital, a paleta de cores é o resultado de um esforço conjunto do departamento de guarda-roupa e da selecção dos locais de filmagem, e não necessariamente só de aspectos práticos de iluminação das cenas. Outra contribuição veio do próprio planeamento dos locais de filmagem, para que a luz de cada estação do ano acompanhasse a atmosfera de cada episódio. A paleta de cores e contrastes de luz são elementos narrativos nas cenas de entrevista tão relevantes quanto as próprias palavras. Tons quentes (amarelados) vivem com tons mais frios (azulados), de forma a isolar as personagens com manchas de cor e luz, criando uma ideia de solidão. O avanço da narrativa é feito através de detalhes subtis de informação não verbal, pelo que cada cena é planeada e editada para criar tensão e fazer sobressair determinadas reacções.

 

A raiz do mal está nas mães que estragam os meninos

Roubamos a pergunta do detective Bill Tench «Como poderemos estar um passo à frente dos loucos, se não sabemos como pensam?» para chegarmos ao tema central da série: compreender as razões para a existência de pura «maldade», sem um motivo racional aparente É SEMPRE a mãe. No final dos anos de 1970, os valores puritanos da sociedade americana não permitiam sequer admitir que se investigasse um tipo de criminalidade violenta, com motivos puramente sádicos e sem sentido prático de ganho para o criminoso. Numa época posterior à luta pelos direitos civis, caso Watergate e assassinatos do culto de Charles Manson, o FBI era uma instituição resistente à mudança, apagada pela burocracia e com uma visão a preto e branco do que era a criminalidade. Desafiando estes valores bafientos, Holden Ford ousa fingir empatia com estes indivíduos com comportamentos «sub-humanos», puxando as fronteiras éticas das técnicas de interrogatório, surdo aos constantes avisos dos colegas sobre as implicações pessoais e influência na investigação de tais comportamentos. Na vida real, John Douglas sofre até aos dias de hoje com o trauma infligido por este trabalho.

Possivelmente, a característica mais interessante de Holden é o contraste entre o seu comportamento desadequado nas relações pessoais, nomeadamente com a namorada e com Tench, e a progressiva facilidade com que fala a linguagem destes serial killers, um termo cunhado pelo próprio. O que me leva a questionar a frieza de Holden: o que é um sociopata, senão alguém que finge empatia? Ainda na questão do motivo, é interessante constatar estes sujeitos partilham em comum um passado de abusos e estadias em hospitais psiquiátricos e estabelecimentos correccionais e, sobretudo, terem sido criados por mães abusadoras e sem a presença de figuras masculinas. Se querem de facto conhecer alguém, perguntem «Gostas da tua mamã?».

Apesar dos assuntos sombrios, existe espaço para momentos de humor, proporcionados pelas road-trips e personalidades contrastantes da dupla de polícias, discursos desconfortavelmente longos e intelectuais de Holden e momentos absurdos de descrições violentas nas entrevistas, um escape que arranca as melhores gargalhadas.

E nas temporadas seguintes, para onde iremos?

John Douglas investigou e entrevistou muito mais serial killers do que as mostradas na série, nomeadamente Ted Bundy, o Unabomber e o recentemente falecido Charles Manson (muitas vezes mencionado), pelo o que não falta é material para várias temporadas.

Duas pistas, no entanto,levam-me a considerar que as várias temporadas irão explorar um assassino em particular– Dennis Rader, conhecido como o estrangulador BTK (=Bind-Torture-Kill), que foi somente preso em 2005. Ele é mostrado nas cenas que ocorrem em Wichita (Kansas), que apesar de aparentemente não terem significado para o avançar da narrativa, reforçam a importância da investigação, ao demonstrar que estes sujeitos vivem (sobrevivem?) entre nós, integrados na sociedade e impunes. Porque é que este vai ser o «cimento» que vai ligar as várias temporadas? Em determinado momento, o detective Tench telefona a um colega, para que reveja uma pista relacionado com um nó numa fotografia de um outro caso (o assassino BTK é visto numa outra cena a praticar um nó).

No que se refere ao percurso do protagonista, olhando para a cena final e comportamento demasiado crente nos resultados da investigação, é inevitável que a temporada seguinte explore as repercussões emocionais de lidar constantemente com este ambiente de tensão, e, muito provavelmente, as consequências éticas de usar os resultados da investigação na captura precoce de indivíduos com comportamentos suspeitos, mas que não cometeram necessariamente um crime.

«Mindhunter» irá voltar para uma nova temporada, reforçando a relação de Fincher com a Netflix, e salvando a honra desta colaboração iniciada com «House of Cards», recentemente manchada pelo comportamento de Kevin Spacey.

 

Bónus: Mindhunter – O Musical

 

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