1. É evidente que um dos fenómenos que mais tem crescido em Portugal, e um pouco por todo o lado, é o aparecimento de ajuntamentos, ou comunidades, em páginas de facebook e sites colectivos onde um grupo de indivíduos é desafiado a dissertar sobre temáticas específicas q.b., piscando um olho aqui e acolá à actualidade que vai sendo derramada segundo a segundo.

O caso mais fascinante entre nós, pela dimensão que tomou, é a Comunidade Cultura e Arte (CCA).

2. No momento em que escrevo esta linha, há 159 596 pessoas que “gostam” da página e seguem as novidades da CCA que se propõe a «popularizar e homenagear a Cultura e a Arte em todas as suas vertentes».

Este nobre propósito chama pelo meu neurónio que ainda segura, contra todo o spam cultural, a firmeza da resposta de Hélia Correia numa entrevista onde se falava de Maria Gabriela Llansol. Hélia, apaixonada confessa pela obra da segunda, atirou ao entrevistador uma seca e directa replicação onde o espírito era: que se dane quem não a encontra e que se dane essa preocupação vã. Quem tiver que chegar chegará sem folclore ou adubos postiços.

Assim é.

3. Quem se recorda da página há um ano atrás lembra-se do que se tratava: stills descontextualizados de filmes da nouvelle vague com legendas delicodoces; fotografias amadoras malickianas dos administradores da página que sangravam de peito aberto atrás do teclado; poemas a celebrar aniversários de defuntos forçosamente inquietos; videoclipes variados.

Às centenas os seguidores podiam dizer que conheciam perfeitamente o filme onde o Jean-Paul Belmondo morria de cigarro na boca e que sabiam em que dia morreu o Dylan Thomas, enquanto suspiravam com a originalidade do Rui-André-Filipe, fotógrafo emergente por entre os pinheiros lusitanos, ou aproveitavam para contar que tinham ouvido antes dos amigos o novo som do A$AP Rocky.

Tudo isto resultou bem e ia ao encontro da missão acima referida. Milhares de likes e cultura às fatias para todos os interessados.

Entre outras coisas, a CCA também se propõe a «procura[r] informação actual, rigorosa, isenta, independente de poderes políticos ou particulares, e com orientação criativa para os leitores.»

A nossa necessidade de orientação criativa é impossível de satisfazer!

4. Com o passar do tempo, a própria Comunidade começou a querer ganhar novas formas e introduzir alguma seriedade intelectual e formal no projecto. No meio dos excertos a tiracolo foram aparecendo críticas a livros e a filmes, artigos extensos sobre festivais, algumas entrevistas.

Criou-se expectativa. Uma equipa jovem, claramente capaz no que toca à comunicação digital, aparentemente curiosa, podia ajudar um país onde os suplementos culturais dos jornais e as colunas especializadas são valas a céu aberto.

5. Depois de meses e de várias tentativas viu-se um pouco de tudo, mas no essencial as peças “jornalísticas” que floriam não auguravam nada substancial. Estrelinhas e muitos links depois estávamos em plena conversa de café.

A diferença é que, nestes conciliábulos, muitos ouvidos se demoram. Uma opinião mil vezes ouvida e cinco mil vezes partilhada chega à secretária do director editorial, da chefia de produção, da equipa de marketing do festival X.

Todas as infra-estruturas produtoras de cultura sabem agora que a CCA existe, e mesmo que não achem credível o conteúdo produzido por ela, vêem aí o seu melhor cavalo de divulgação. Começam os passatempos de dez bilhetes duplos para o candidato a Óscar Estrangeiro e as partilhas de excertos dos jovens cronistas.

Entretanto, dá-se o anúncio de se estar a preparar uma revista literária para júbilo de milhares de adolescentes, as parcerias com jornais e jornalistas treinados começam, e solidifica-se uma legitimidade. A comunhão das massas! e a nossa circunstância.

6. Aqui desenha-se a linha. É onde estamos.
Dezenas de cenários e a diluição de todos é o que pode acontecer.

6.1. Numa corja onde a crítica está moribunda, cheia de velhos interesses, não sendo lida em nenhuma das vertentes em que é escrita, a ideia das várias entidades procurarem aprovação, publicidade e lucros através de nomes desconhecidos, mais jovens, e menos comprometidos, é bem-vinda. Este é um cenário onde crescer em comunidade pode ser maravilhoso.

Para isto basta que a equipa vá crescendo e, que mutuamente, elevem o nível e surjam boas surpresas. Se textos frescos saírem regularmente, todos beneficiamos. Se não aparecerem nomes capazes para tal, a comunidade (esta e todas) crescerá com as técnicas de comunicação usadas até ao momento e o nível mediano do conteúdo é compensado com o alcance da informação e um público amorfo.

(Um dos problemas para um projecto destes, que não vai ser desenvolvido aqui, é os seus elementos mais talentosos serem convidados a integrar os velhos órgãos de comunicação social e o ciclo não quebrar.)

6.2. No cenário B temos a comunidade a ganhar robustez, mas, sem conseguir avistar as suas fronteiras e com ânsia em dar o próximo passo, começa a ser permeável aos nomes já reconhecíveis de outras paragens tradicionais. Desta vez não como parceiros, mas como equipa.

Aqui é de esperar outra atitude do público. Não é compreensível que o indivíduo Z insulte os jornais tradicionais de boca cheia «porque a cultura não tem espaço» e depois ao ver isto não fique um pouco enjoado.

1 430 pessoas gostam, há corações ao alto, e a tiragem de 150 exemplares ainda se encontra por aí?

A um estatuto profissional e a uma equipa pluridisciplinar com gente experiente só pode ser exigido o melhor. A melhor informação e um debate constante de confronto onde, meio à cabeçada, se limam as arestas até podermos dizer: é aqui que venho ler como foi o concerto A, como se comporta o actor B, ou o que significa verdadeiramente esta headline da Visão.

7. [pausa para o leitor. deixemos o assunto fugir para ninguém nos levar muito a sério]

Chegando aqui, este texto é mais incisivo do que se me tivesse proposto a falar dos velhos semanários. Talvez porque sinta ainda a fonte das possibilidades nestes ajuntamentos. Talvez porque rangemos os dentes, tendencialmente, aos da nossa geração.

Contudo, há grupos nesta lógica que cumprem, por cá, um trabalho tão exemplar e fundamentado que não me passaram pela cabeça até agora como À Pala de Walsh ou os Truques.

8. Agora dou por terminadas estas horas de escriba acocorado.

Azarado é o que tropeça no fragmento cibernauta certo a horas erradas… «Durante toda a minha vida vi os homens, de ombros estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios».

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