«Esquece que é uma anime, está mesmo muito além do que imaginas»

Não me recordo quando foi que vi Cowboy Bebop pela primeira vez, ou de quando se tornou num hábito a revisitação periódica cujo sentido não se perde na repetição. Cowboy Bebop é para mim a melhor anime e se aí desse lado já me torces o nariz, reformulo: é para mim uma das melhores séries.

Mas, antes de me adiantar no tema, first things first.

 

Emitida pela primeira vez em 1998, Cowboy Bebop é uma série futurista de 26 episódios rica em influências do sci-fi e cultura americana, com uma profundidade insuspeita quando pensamos que se trata de uma trama de cowboys no espaço. 

Em 2071, a vida terrena como a conhecemos desapareceu e o homem dispersou pelo universo. E se hoje dá trabalho manter a ordem e legalidade nesta nossa terra, imagine-se com a vida espalhada um pouco por todo o lado. Surgem, assim, caçadores de recompensas ou bounty hounters, ao bom estilo do oeste norte-americano, que percorrem o universo atrás de criminosos e dinheiro.

Spike Spiegel e Jet  são os primeiros cowboys  da nave Bebop a conhecermos, a quem se juntam a quatro-patas Ein, a trafulha Faye Valentine e a hacker Ed. (Bebop é uma palavra bem conhecida do jazz e que demonstra a importância da música e ritmo para construção da narrativa. Aliás, consta mesmo que em certos momentos o criador da série, Shinishiro Watanabe, se tenha inspirado na música que os The Seatbelts estavam a compor para Cowboy Bebop.)

Inicialmente, cada episódio traz-nos uma nova aventura e somos levados a crer que toda narrativa é como uma manta de retalhos sem aparente ligação. Essa é, contudo, a visão simplista. Sempre com algum distanciamento face ao exterior e mesmo em relação uns aos outros, as personagens de Cowboy Bebop vivem alheadas, perdidas no cosmos sem aparente justificação para viverem. Deixam-se levar pela cadência dos dias que não podem contrariar. Vivem o presente com um humor cru, guiados pela sobrevivência e agarrados à memória de um passado que é o traço mais representativo das suas personalidades.

 

Em  Cowboy Bebop existem três caminhos narrativos. O primeiro e mais imediato será o das várias pequenas histórias que vão sendo contadas, episódio após episódio. Desde o contacto com criminosos que não merecem condescendência das personagens, a bandidos com bom coração que acabam por proteger ou figuras peculiares que os obrigam a reflectir, cada uma das personagens se vai revelando pela interacção com o outro. Interacção essa que é sobremaneira evitada, porém com um insucesso gritante. Acabam muitas vezes por perder a razão e o dinheiro ao escolher fazer o que está certo e ajudar outros, tornando-se nos bounty hunters mais falhados da História.

De certo modo, as narrativas periféricas obrigam os protagonistas ao confronto com a realidade e à constatação de que, na verdade, os seus problemas são tão válidos como os de qualquer outra pessoa.

Num segundo caminho narrativo, começam aqui e acolá a surgir pistas sobre as histórias de cada personagem, sobretudo de Spike (a personagem alfa).

Nesta anime há um certo desapego às palavras. São várias e longas as sequências de imagens, espaços de contemplação que nos relatam memórias do passado de forma imprecisa. Se era mais fácil que nos fossem ditas de forma fechada e limpa de interpretações? Então, não era! Mas quando é isso na vida é assim? 

A memória de cada personagem – dos adultos, já que a criança Ed tem uma história necessariamente menos complexa – é tratada individualmente, sem que haja significativa interferência das outras personagens. Ora pelas sucessões de imagens, ora pelas situações que se intrometem na caça espacial, ou pelos detalhes que reparamos cumulativamente à medida que revemos a série, a narrativa tende para a reconciliação pessoal com o passado. Ainda assim, as personagens nunca chegam expressamente a aceitar o quanto a proximidade entre si é importante.

Por fim, a terceira é a narrativa global, deixada escancaradamente aberta. Inclui tudo o que descobrimos, o que vimos acontecer e o que desconhecemos que possa vir a ocorrer. Dela resulta uma apologia à necessidade de nos livrarmos das memórias de um passado pesado, sob pena de nos perdermos no mundo. É também uma negação da constante necessidade de encontrar um propósito para tudo na vida, até para os vazios naturais em todos os dias.

É curioso para mim ver que nesta série são tratados temas actuais – e alguns pouco consensuais – com uma desinibição que impressionaria muitos bons indivíduos deste século. Ambiente e preservação de espécies em risco, corrupção e terrorismo das instituições, o avanço da tecnologia vs. o apego pelas antiguidades – nunca será demais ver a reacção de Spike e Jet perante uma cassete de VHS com receio de ser uma bomba –, inteligência artificial e testes genéticos, “congelamento” de seres humanos, androgenia e homossexualidade, tudo isso é possível encontrar em Cowboy Bebop com a naturalidade de um mundo que na volta tropeça enquanto rola.

Por outro lado, é reconfortante perceber que nesta idealização de futuro não há uma diferença assim tão grande em relação à vida que vivemos agora, porque nenhuma evolução até hoje foi de facto um ponto de viragem absoluto em relação ao passado da humanidade. É, por isso, que na volta há três personagens que aparecem do nada. Os três velhotes lá do sítio que jogam às cartas, cuidam uns dos outros e se queixam da vida sem amargura: Antonio, Carlos e Jobim. Na bizarria de um conceito de ficção bem distante do nosso quotidiano, há em Cowboy Bebop um pouco de todos nós. Há dias melhores e dias piores, há reacções descabidas, intuitivas, ou ponderadas, benevolentes. Há amargura e esperança. E no aconchego de todos os dias, a subita vontade de ir atrás do desconforto.

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