O outro dia, li uma coisa do Afonso Cruz no último volume daquela abençoada Enciclopédia da Estória Universal. Alguém dizia, a propósito de ter muitos livros, (muitos dos quais não seriam nunca lidos) que lhe cativava a ideia da possibilidade, da liberdade. «Quando tenho muitos livros para ler, tenho escolha. Quanto menos tiver, mais a minha liberdade está confinada. Ela depende dos livros que não são lidos». E eu, que nunca soube explicar isto assim aos críticos da minha aquisição desenfreada de volumes, senti-me bem por poder, da próxima vez, justificá-la como mais um acto de liberdade.

Eu gosto muito de ser livre. O que mais me apetece, geralmente, no meu dia-a-dia, é exercer essa liberdade de forma plena. Quero a liberdade como uma obrigação diária, assim cheia de loiça para lavar, compromissos e contas para pagar. Não como um affair.

E é exactamente aqui que entram os aeroportos.

Neste momento, os aeroportos são o grande atentado dos tempos modernos à minha liberdade individual – chiça, que exagero, pensará o leitor. Leitor, então? ‘Tamos? Pronto.

O que sucede é simples: eu entro num aeroporto para viajar e começam a tratar-me como se eu fosse carne de vaca japonesa da melhor qualidade que, em vez de massajada, tem de ser escarafunchada. O verbo escarafunchar fica muito bem conjugado, como pode notar o leitor e, agora que já se acalmou, talvez possa apreciar de verdade esta mui bela sonoridade aliterada.

As formas de «escarafunchamento» utilizadas em aeroportos consistem em pedirem-me para fazer coisas que eu não faço com os meus amigos mais próximos: eu não tiro o cinto num jantar de Natal, eu não tiro as botas na presença da minhas tias-avós, eu não mostro o passaporte a sete ex-colegas de faculdade numa noite de copos, enfim, eu não deixo que a minha namorada veja os meus boxers mais ratados. E tudo piora com as companhias low você-só-pode-levar-uma-malinha-seu-javardo-tome banho-antes-de-vir-e-é-se-quer cost. As companhias low-cost foram criadas para estudantes. Eu na faculdade cheguei a dormir trajado, num quartel de bombeiros, enrolado num cobertor de um sem-abrigo. E tudo bem. Mas agora já aleija um bocadinho. Ora bem, se eu só posso levar uma mala eu, naturalmente, tive de a arrumar como se estivesse a jogar em modo GOD o último nível do Tetris. E ainda tive de me sentar em cima dela. Eu não posso, em consciência, abrir a mala no controlo de bagagem. Parem de achar objectos estranhos na minha mala. Costuma ser só uma calçadeira.

Então, mas este indivíduo não tem noção de que isto são medidas de segurança fundamentais para o bem-estar da população e, como tal, necessárias? Leitor, eu quero que o leitor coloque as medidas de segurança num sítio onde possivelmente o leitor é mais livre.

Um aeroporto é, sim, a minha liberdade violada. Mais que não seja, porque só nos é apresentado um caminho. Se sairmos da linha, julgo até que surgirá um sniper da ANA Aeroportos que possivelmente nos mata. «Não levarás líquidos com mais de 100 ml».

Ai o que eu dava para que, só às vezes, nos deixassem em paz. Constatava, pois, o conviva do bibliófilo supracitado, após a explicação. «Mas convirá que isso é uma desculpa para um comportamento que pode ter algo de reprovável.»

Da mesma forma que ele, «não digo que não».

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