“Eu nunca fui do Prog Rock

Eu já nasci depois do PREC

Tarde demais pra Proto-punk

Branco demais pra ser do Rap…”

E com estas palavras, Samuel Úria consegue descrever alguma da sua existência e alguma da minha também. Deixem-me apresentar-me convenientemente: eu, Garoupa de Ipanema, nunca fui do Prog Rock.

Tendo crescido numa daquelas zonas suburbanas de Lisboa que são só mais um dormitório de quem trabalha na capital, a luta pela identidade individual sempre existiu no meu grupo de amigos. Frequentei uma secundária com estratos socio-económicos demarcados e com grupos sociais de fazer inveja a qualquer rom-com de adolescentes americanos.

À entrada ficava o pessoal de Economia e Humanidades, franca minoria porque, já se sabe, essas coisas nunca deram emprego (ahah, se ao menos esta percepção não fosse errada…) e depois existiam os “artistas” e os de ciências. Nos artistas, à vossa direita residiam os góticos. Criaturas que, contra toda a expectativa, eram de facto dóceis e amigáveis por detrás de todo o eyeliner preto e existência depressiva. Ao seu lado, coexistiam placidamente os freaks, com rastas e tie-dyes, uma espécie de hippies perdidos na vida e sempre a fazer algum tipo de malabarismos nos intervalos das aulas. Personalidades artísticas.

À vossa esquerda, encontraríam das espécies mais incríveis que já vi na vida: os betos de Azeitão. Alinhados milimetricamente contra a parede, todos com o mesmo corte de cabelo que oscila entre a “lambidela de vaca” e o “cabelinho à foda-se”, todos com pequenos espasmos em intervalos de tempo demasiado regulares de forma a conseguirem afastar o dito cabelo das mucosas e a ver alguma coisa do que se passava. Sempre próxima, e suspirando pelo beto de Azeitão, estava a beta dos atacadores. A beta dos atacadores era uma criatura que fazia sentido no final dos anos 90, início dos 00, mas felizmente durante pouco tempo. Era uma criatura com demasiadas madeixas e usava atacadores fluorescentes no lugar de qualquer bijuteria: como colar, como pulseira, como pulseira de tornozelo…

No meio de tudo isto, estava eu. Algures entre os nerds mas, amiga dos freaks, com gostos e paixões um pouco distintas. Branca demais para me juntar ao Rap, tarde demais para ter descoberto o Proto-punk a tempo e com grande desejo de ter sido do Prog Rock nesta altura.

Mas, gostava.

Fonte da imagem.

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