Madrid. Orgulhosa capital do Reino de Espanha. Casa de reis, do melhor do mundo e, muito em breve, desta que vos escreve. Isto se conseguir encontrar uma opção que não me obrigue a vender os órgãos internos para pagar la rienda.

A sério gente, eu rio-me na cara de quem acha que Lisboa está impossível. Pardon my portunhol, mas ¡Socuerro! é tudo o que me apraz dizer. O imobiliário está pela ¡huera de la muerte!… Tanto sítio incrível no mundo para estudar e os cabrões dos Erasmus vão todos parar a Madrid, lançando o mote para este esquema de agências e senhorios que se fazem valer da enorme procura para pôr a cidade no epicentro de uma bolha especulativa insuportável.

Já vi de tudo. Num momento de inocente esperança descobri um cosy interior bedroom por 300€. Era literalmente uma despensa sem janelas, com um colchão sem estrado a ocupar todo o comprimento do espaço. E a casa tinha outros 6 quartos. Se calhar estou a ser exigente, mas sei lá, gostava de ter uma janelinha quanto mais não seja para pôr o quartito a arejar, que isto de ter uma alimentação bastante rica ao nível do bróculo é muito bonito, mas oopsie, não é?

Outro dos anúncios tinha como título Habitación muy barata para chicas. Ao ler a descrição, percebíamos que era um quarto de 15m2 para una chica liberal, onde também vivia um hombre trabajador y fumador. Como se isto não fosse estranho o suficiente, o anúncio terminava com um arrepiante solo viveremos tu y yo. OH PÁ QUE NOJO! A SÉRIO! EW.

Já despojada de toda a inocência, continuei a minha busca para descobrir que afinal nem tudo é mau! Há casas a preços más-o-menos, com bom ar, bem localizadas e que parecem uma excelente aposta. Isto até o senhorio nos explicar as exigências. Para ficarmos com a casa basta chegar lá em 30 segundos, pagar o primeiro mês de renda, uma fiança no valor de duas rendas e ainda o mês de agência. Só temos de ser o Speedy González e ter saldo para quatro rendas. Noves fora nada, fica a faltar entregar cópia do contrato de trabalho, os três últimos recibos de vencimento (coisa que quem só vai começar a trabalhar em Janeiro obviamente não possui) e o coração de uma virgem recolhido ainda em vida numa noite de lua cheia, com Marte na casa 7.

Chegou a um ponto em que percebi que só ia ter dinheiro para um quarto, desistindo de ser livre e independente. É que uma pessoa já vive sozinha há uns anitos e adora essa situação, mas emigra e sujeita-se, pronto. É só voltar a dividir uma casa. Ter de esperar para tomar banho, lidar com cabelos no ralo, respirar fundo com a transformação da bancada da cozinha em obras primas de Picasso e não poder dar puns à vontade não é nada, comparado com não ter dinheiro para, sei lá, comer.

Por isso lá foi esta Maruca de vosotros lançar-se na busca de um quartinho com janela numa casa com menos de dez quartos. Encontrei um. Preço em conta (470€, 70€ acima do que queria gastar), com (apenas) outros quatro inquilinos e perto do trabalho (40 minutos a pé, que emigrante que é emigrante poupa até no passe). Pumba, avanzemos! Tudo fechado, contrato do meu lado, a tranquilidade a começar a inundar-me e num repente, nem 48 horas depois, tiram-me o tapete de debaixo dos pés. Al final la actual inquilina decidió quedarse y ya no vá a salir.

Hija de puta.

Noite em branco, passada a construir uma elaborada tabela de excel com todas as características dos outros quartos que eram hipótese. Dia seguinte, nova oferta. Já estava por tudo, que se foda o orçamento, live rich die young, ou o raio! De ocupado em ocupado, restava-me uma opção, cento e vinte euros acima do que queria/ podia pagar. Mas hey, viver de latas de atum e pêssego em calda nunca matou ninguém não é, L.? Por isso locura, solo se vive una vez, vamos lá! Novo senhorio contactado, negócio fechado, contrato enviado, Maruca descansada. 

Durante duas incríveis semanas, eu era aquela pessoa que já tinha sítio para ficar em Madrid nos próximos meses. Tudo estava bem, pequenos póneis dançavam em meu redor, podia curtir ao máximo a mudança, tratar de tudo o resto era cacahuetes

Mas dizem que a história se repete e não há uma sem duas (espero mesmo que haja duas sem três), pelo que um belo dia volto a acordar com a seguinte mensagem: Siento mucho tener que informarte que tu propietario ha tenido que cancelar tu reserva en Madrid, porque la inquilina actual se ha prolongado su estancia.

Foda-se. Puta que pariu. Coma mierda, maldita malparida, hija de puta, mierda, mierda. Coño.

Maneiras que estou na fase é-o-pânico-o-horror-o-drama, sem saber onde vou viver. Madrid chamou, Madrid m’encanta e, mesmo sabendo que não corre por lá nenhum rio de jeito, deixei-me ir na corrente e lancei-me, feita louca, nos braços dela. E agora só me resta montar uma Quechua no Retiro ou apelar ao coração de um conterrâneo. Cristiano, mi amor, eu tomo-te conta da Alana Martina. Não se arranja por aí um quartinho?

 

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