Em 2007, se houvesse uma representação gráfica da minha dieta musical, a base da pirâmide alimentar pertenceria aos Queens of the Stone Age (QOTSA), seguidos muito de perto por um generoso consumo dos grupos alimentares Arctic Monkeys e The Strokes. Aos 17 anos, considerava a pergunta «Qual é o teu álbum preferido de QOTSA?» um critério perfeitamente legítimo de selecção de amizades. A resposta correcta seria Songs for the Deaf. Nesse verão, descobri por engano o terceiro álbum da banda. Homme e seus muchachos levaram-me à boleia, com Grohl no banco do pendura (leia-se na bateria), pelo deserto da Califórnia e ganhei o gosto a um som cru, árido e masculino, que tinham há já vários anos cunhado de stoner-rock. Agora, em 2017, Songs for the Deaf é um adolescente de 15 anos. De formação em formação, e de álbum em álbum, o registo da banda tornou-se menos pesado e mais rock n’roll, até porque o que Josh «Ginger Elvis» Homme gosta mesmo é de fazer as miúdas dançar. (A contratação do produtor Mark Ronson para o mais recente Villains foi uma jogada ponderada.) Assim, em busca dos meus 17 anos, e sem imprevistos da Ryanair, rumei até Londres num avião pejado de ingleses a ressacar do bom vinho português.

Objectivos da excursão

  • Assistir a um concerto de QOTSA sem ter de bater/ empurrar/ esfolar pessoas que acham que a comissão da bilheteira serve para cobrir faltas de educação. Estou a falar de ti, turista alemã a quem quase arranquei um punhado de cabelos no Alive!
  • Conferir Villains ao vivo;
  • Avaliar in loco as ancas giratórias de Homme;
  • Gritar «More Cowbell!!» aos primeiros acordes de «Little Sister»;
  • Recitar sem hesitações a lista de drogas de «Feel Good Hit of the Summer».

Comprar bilhetes

Assistir a espectáculos no Reino Unido exige planeamento. Para além dos voos e alojamento, no momento da abertura da venda de bilhetes online é preciso estar de cartão em punho a renovar constantemente a página. Os ingressos esgotam rápido, mas nada temeis! Porque possivelmente vão ser revendidos de imediato em sites paralelos… A referida negociata obriga a Ticketmaster a enviá-los apenas por correio e, em geral, entre 10-15 dias antes da data do espectáculo. De extrema importância— o nome da reserva deverá ser de quem vai assistir ao concerto. No passado mês de Setembro, muitos foram barrados às portas da O2 Arena em Foo Fighters, por não apresentarem um documento de identificação com o nome correspondente ao do bilhete.

O Concerto

A Wembley SSE Arena é uma espécie de «Pavilhão Atlântico» lá do sítio. Portanto, uma sala medíocre, mas «espaçosa». À porta, a segurança do costume. O moço da entrada elogiou-me o telemóvel e deixou-me entrar com uma mochila «empanturrada» de souvenirs. A primeira fase estava completa.

O concerto de abertura esteve a cargo dos perfeitamente esquecíveis The Bronchos. Destes, só consigo elogiar a capacidade de autocomiseração do vocalista, que entre ruídos distorcidos (seriam “canções”?), gemia um «Queens of the Stone Age are a much better band than us». Ninguém o contrariou. Mais sorte terão os que apanharem Royal Blood, Wolf Alice ou Ty Segall, no próximo ano.  

Após cerca de 1 hora, passada a bater os dentes na bancada, soou «Walk the Night» dos The Skatt Brothers e avistámos, do outro lado da arena, cinco silhuetas. Havia uma, que pelo físico e atitude, se distinguia em absoluto. De camisa vermelha, Josh, o gigante arraçado de norueguês, juntou o som da sua guitarra aos primeiros acordes de «If I had a Tail» dedilhados por Van Leeuwen. Seguiu-se «Monsters in the Parasol», do clássico Rated R, e «My God is the Sun». O primeiro ataque a Villains foi feito com a dupla «Feet Don’t Fail Me» e «The Way You Used to Do». No primeiro, uma já clássica interrupção para Homme «dar uma palavrinha» aos seguranças, que não queriam pessoal às cavalitas: «Put the flashlight down, motherfucker. These people can do whatever the fuck they want… You work for me». E a malta começou a amontoar-se aos ombros uns dos outros…

No restante alinhamento, mais quatro incursões por Villains — «The Evil has Landed», «Domesticated Animals», «Villains of Circumstance» e «Head Like a Haunted House», esta última já no encore —, que encaixaram perfeitamente nos clássicos «Avon», «You Think I Ain’t Worth A Dollar, but I Feel Like a Millionaire», «No One Knows», «Sick, Sick, Sick» e «Little Sister». Pelo caminho visitaram-se «Smooth Sailing», «I Sat by the Ocean» e «I Appear Missing» de … Like Clockwork. Destaque para «Make It Wit Chu», um clássico das Desert Sessions, rearranjado para Era Vulgaris, que meteu toda a arena a repetir o sensual refrão, como se de um mantra se tratasse.

Antecipando o favorito «Go With Flow», Josh aproveita a ocasião para se declarar a Londres. Aparentemente, ele e a cidade «têm uma cena». É uma casa longe de casa. Sem sentimentalismos. É só um desabafo factual, reafirmou. Para quem nunca o terá ouvido em entrevista (aconselho a audição do podcast WTF With Marc Maron) poderá confundi-lo com um tipo abrutalhado, com pose de macho. Numa escuta mais atenta às suas letras, descobrirá, a espreitar por entre as malhas rock, escuridão e humor. Este último, manifestado em palco com assaltos sexuais aos postes de LED do cenário, mentiras sobre o aniversário do “seu mais novo” Michael Shuman ‒ em coro todos cantámos os Parabéns, sem ficar a saber se estávamos adiantados ou atrasados nas comemorações; o baixista faz anos em Agosto ‒ e cantarolar Rehab de Amy Winehouse no meio da enumeração de drogas de Feel Good Hit of the Summer.

Mas há mais vida em QOTSA para além do carismático frontman, com os multi-instrumentalistas Dean Fertita (Dead Weather, The Racounters) e Troy Van Leeuwen, e os rapazes da secção rítmica — o baterista Jon Theodore e o referido Michael Shuman (Wires on Fire, Mini Mansions). Os dois últimos com apenas duas participações em álbuns de estúdio. Parte da formação desde 2013, Theodore chegou aos QOTSA com uma carta de recomendação de Grohl e um passado nos Mars Volta. Em contraste com os visuais mais estudados dos colegas de banda, apresentou-se em palco de camisola de alças, pronto para suar. Atrás do kit, a sua presença é sólida e muscular, como mostrou num longo solo, já o concerto ia para lá de meio.

A completar a noite tivemos direito a uma versão prolongada de «A Song for the Dead», apenas comprometida por algumas falhas de som. A cambalear, o Gigante saiu de cena. Posso concluir que esta foi uma excursão bem sucedida, com todos os objectivos cumpridos.

Conclusão

Se tiverem mais de 1,58 m de pessoa e disponibilidade, não resistam ao sensual uivar destes coiotes. Vão fazer-lhes uma visita ao Passeio Marítimo de Algés, no próximo verão. Eles não desiludem. Aconselho, no entanto, que acendam uma velinha ao S. Pedro para que o vento sopre do palco principal para a tenda electrónica. Ninguém precisa de ouvir QOTSA em versão remix.

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