1. Começando pelo início: o valor cinematográfico de Blade Runner 2049 é a soma do histerismo dos fãs da cooperativa Nolan-Villeneuve-Abrams com a amável crítica do Luís Miguel Oliveira dividindo o resultado por dois.

Podia, e talvez devesse, começar a desenhar os contornos desta parcela de aquário por assuntos que puxam para o centro, esse ponto essencial: reavivar a vossa memória com relatos dos incêndios por quem os combateu no quintal da casa; o Social Credit System pronto para ser implantado na China; alguma outra vitória do Estúpido e do Feio do nosso século. Contudo, tubarão que sou e martelo que fui, ando com esta obsessão tripartida que espelhei no título.

2. Quanto ao livro de Dino Buzzati e o meu emprego a relação é evidente: todo eu sou um Giovanni Drogo de rosto colado à inutilidade do computador na espera interminável que algum assunto importante me caia na secretária. Precário, agarrando-me à ideia que o escritório poeirento é mesmo uma editora como os rodapés do papel timbrado indicam, espero aprender alguma coisa semana após semana enquanto sei que estou a perder sinapses sendo um assistente pessoal coxo, intermédio, sem posição declarada. E quando estou quase a sair da fortaleza lá vêm as promessas das futuras glórias declamadas pelo coronel-editor-fantasma.

Mas dando dois passos atrás: livro pertinente. Comparado centenas de vezes com outros autores do século XX como se fosse necessário abrilhantar o quer que fosse. Não é. Este romance sobrevive bem sem termos bacocos como kafkiano. O que sobressai de todo o livro é a quantidade de prazer que ele proporciona mantendo-se sempre nas maiores subtilezas narrativas e estilísticas. Não há riscos técnicos na construção dos capítulos nem das frases. Não há metáforas inovadoras a cada esquina. Entra-se neste livro como quem entra numa sala de cinema para ver um dos filmes favoritos pela segunda vez e, sem surpresa, reencontra a serenidade das coisas que batem certo. Mesmo lido pela primeira vez, todos os encontros (com raríssimas excepções) que Drogo e os camaradas têm no seu dia-a-dia são uma confirmação à intuição provocada pelo capítulo anterior.

Recordemos o ponto da história onde Drogo, depois de quatro meses de tédio e espera, no consultório do médico que está disposto a passar-lhe o atestado de dispensa, começa a reparar pela janela o que já vira centenas de vezes, mas: «Viu, entre lanternas e archotes, contra o fundo lívido do pátio, soldados enormes e briosos desembainharem as baionetas. Sobre a brancura da neve formavam filas negras e imóveis, que pareciam de ferro. Eram muito belos e estavam petrificados, enquanto uma trombeta começava a tocar. Os sons ampliavam-se pelo ar, vivos e brilhantes, penetrando directamente no coração.» O leitor levemente frustrado pela decisão da personagem não pode dizer que é apanhado de surpresa. E assim irá até ao fim do livro que não é mais que a conclusão de uma vida comum (ah! e os capítulos breves onde se dá o embate de Drogo com a cidade que deixou… quem nunca?).

3. O meu problema é que por muito que olhe pela janela do escritório não vejo nada que brilhe. Apenas uma ruela perpendicular à Avenida de Roma onde umas senhoras passeiam os cães cinco vezes por dia, e uns putos acabam a aula de desenho à espera do Mercedes do pai que está para sair da companhia de seguros. E antes de suposições descabidas, deixo aqui claro que fui eu a última pessoa a lavar as janelas, pelo que posso garantir um esforço em ver através dos ditos vidros. Uma maçada, portanto.

O meu patrão, neste momento, é já alguém desprovido de contornos e características pessoais. É uma ideia. Representa o chico-esperto puro sangue lusitano, e isso é triste, pois o que uma pessoa precisa, por vezes, é de opressores talentosos. Na literatura alemã e austríaca do final do século XX aparece com alguma frequência essa ideia do adversário/inimigo que estando a altura, mantém um pouco mais vivos os protagonistas capítulo após capítulo. Não é o caso. Na realidade, estou a tentar que ele me dispense (o verbo despedir não se aplica a quem nunca teve vínculo oficial), mas ele insiste em dançar comigo esta valsa inútil e interminável.

4. Recordo-me agora, apropriadamente, de uma conversa de café ouvida em Braga onde uma miúda dispara para o namorado(?):
Sozinha não posso, contigo não quero!
Moça bracarense dixit.

5. No campo das ideias estão também Eldon Tyrell e Niander Wallace. A pequena diferença é que, estes, sendo patrões, que são ideias, têm o charme de representarem uma visão magnânima  e simultaneamente palpável do dia-a-dia daqueles mundos.

O Wallace apesar de ser introduzido pelas curta-metragens que servem de prequelas ao Blade Runner 2049 é alguém esbatido quando puxamos pela memória. Ficamos com a sensação da personagem ter criado um vazio no filme. Porquê? Porque pensamos ingenuamente que é preciso o génio malvado estar em vários planos para que o sistema funcione. É o nosso lado chapliniano a esquecer-se que já hoje os Elon Musk’s e os Larry Page’s desta vida actuam da mesma maneira: têm uma ideia muito clara do que o Mundo deve ser nas próximas décadas bastando explicar uma vez por semestre aos comuns mortais (expressão amargamente significante) como é que as coisas vão mudar até lá chegarmos. Depois, numa penumbra de indiferença, caminhamos com naturalidade para essa maravilhosa visão global das coisas imortais.

Nesse sentido, cada minuto que Jared Leto não aparece é um ganho. O mesmo se aplica ao meu patrão.

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