A minha avó tinha uma maneira de me fazer entender que estava a ser um mariquinhas pé-de-salsa com uma frase que, hoje, seria tão politicamente incorrecta como qualquer «Portugueses» sem o «Portuguesas». Dizia-me a minha avó «Faz-te um homem» e eu sempre achei isso importante tanto que, hoje em dia, o uso com qualquer pessoa que, efectivamente, esteja a ser mariquinhas, mesmo que, ao chegar a casa, essa pessoa tenha toda a salsa de que necessita.

Quando eu tinha nove anos, e passei de um colégio de irmãs da Santíssima Trindade para a escola EB 2,3 da Bobadela, cometi um erro de palmatória que me podia ter custado caro: fui perguntar a um dos meus novos amigos se ele queria ir brincar. Ninguém, no quinto ano, diz isto. Fui gozado pelo meu novo amigo e por todos os outros que nas imediações se encontravam. No fim do dia, contando o caso lá em casa, a minha avó «Faz-te um homem. Mas o que é que isso interessa?». A resposta era nada, como se percebeu, dias depois, ao mudar de comportamento, não me preocupando muito com as bocas que foram atiradas e fingindo ser menos bebé chorão do que realmente era na altura.

A mesma avó que, quando o meu primo André, fingindo-se cansado e, portanto, cheio de sono, ao vir do parque, «adormecia» ao colo dela que o carregava rua acima, o via espreitar, de olhos abertos, pelas montras das lojas por onde iam passando. Uma avó que sabia que dar colo não é o mesmo que facilitar quando a hora de «nos fazermos homens» chegava. O André, que nunca gostou de andar, hoje estuda para construir aviões, o que faz sentido porque assim, sem colo, fica mais fácil subir rua adiante.

Esta avó, que se chamava Bárbara, teve outrora vinte anos e, com essa idade, e duas filhas pequenas de dois e três, uma em cada mão, atravessou o Oceano para se juntar ao meu avô. Gosto sempre de imaginar essa cena como se o navio fosse o Titanic e elas estivessem alojadas na terceira-classe – e parece-me assustador. E depois gosto de imaginar o que qualquer garoto de vinte anos hoje em dia sentiria na mesma situação. E chego à conclusão que o «Faz-te um homem» faz mais falta que nunca, a nós, à geração que passou a viver na sua própria cabeça, vivendo em pleno sobressalto de magoar e ser magoado, preocupando-se tanto com o detalhe que se esqueceu que ali, na costa, está o mesmo Oceano e, por isso, a mesma travessia à espera de ser feita.

Hoje, cada vez que a vida parece aleijar, penso na minha avó e dá-me uma vontade enorme de continuar. «Faz-te um homem», diria ela. E eu, que nem sou muito de obedecer à primeira, deixo de ser pussy e faço-me à estrada.

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