Aqui, às vezes, faz frio

Somos poucos. Perdidos perto do Atlântico. Aqui, não faz frio. Pego na chávena com chá apimentado das Índias e olho lá para fora. É raro. Em Lisboa. Um daqueles dias que os novos habitantes desprezam. Um daqueles dias dos quais fugiram. Um dia de chuva.

Saio à rua e respiro. Oiço conversas em francês. “La baguette”, “Le croissant”. Procuro um sítio para almoçar. Entre o Pho, Ramen, as Bowls e Burgers, procuro um bitoque. Não encontro. Escolho outra hipótese das descritas. Sento e peço o menu. Os empregados não falam português. Suspiro.

Ocupação ou Construção?

Encaro o turismo como novas almas que nos habitam. Que nos constroem. Que mostram a faceta hospitaleira e preocupada em nós. Cada pedacinho de terra de uma cidade é amplamente conhecido no seu detalhe por um grupo restrito de habitantes. Se cada um desses pedacinhos de terra que pertencem a Lisboa estivessem tão bem explorados como a Baixa Lisboeta, os turistas não estariam concentrados em míseros metros quadrados a inflacionar rendas. É um papel que é nosso. Porque há mais. Muito mais. Há tanto quanto aquilo que queiramos mostrar e fazer descobrir.

Trendy Alfacinha

As cidades estão sempre em permanente mudança. Não há padrões. Há momentos. Este é o momento de Lisboa. Lisboa é trendy. Lisboa é empreendedora. Lisboa é fashion. Tem quantas facetas quantas as que se vão descobrindo. É o real empoderamento de uma cidade que vivia esquecida, podre e degradante à beira do Tejo. Aqui, onde não havia nada de interesse. Prédios que caíam, economia estagnada. Uma cidade que não era mais do que um acompanhamento do prato principal que era a Europa Central. A vizinha Espanha sempre teve salero. Portugal transparecia um Fado triste.

O Equilíbrio Desejado

Lisboa é a filha bipolar. Aquela que teve a sua fase depressiva, e agora vive uma fase de mania. Onde a criatividade se expande de modo descompensado. Onde acontece. Acontece tudo, todos os dias. É preciso balançar este ritmo. Para que as novas correntes de gente que passam e pessoas que se instalam não retirem lugar aos que já cá marcavam os seus momentos diários. Que fizeram o seu primeiro caminho para a escola de mão dada a medo com os seus pais. Que perderam a conta às inúmeras viagens de eléctrico que usam para fins de transporte e não de turismo. Que viram o sol nascer na Ribeira das Naus entre conversas e vinho português.

Porque não se pode tirar este privilégio a uns para dar a outros. Porque para isso, já basta tudo o que nos reserva esta era de neoliberalismo em que vivemos. É preciso um plano de batalha. Não para combater estas invasões e derrotá-las. Não para nos proclamarmos vitoriosos contra a massificação dos turistas.

Formemos antes uma aliança. Criemos um futuro conjunto. Passemos do estado “É complicado” para “Lisboa está numa relação com o Turismo”.

Fonte da imagem: Marco Verch

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