Quando o Herrera chegou ao Porto, o Zimbabué era Rodésia e o Mugabe dava aulas. Sem exageros. 1985. Foi por aí.

Vinha de participar na Taça das Confederações pelo México. Sim, pelo México. Onde os artistas da bola aparecem com a mesma facilidade do petróleo na costa portuguesa.

Um craque, escrevia-se, à época. Eu, que sou menos optimista que a Teodora Cardoso, achei estranho.

E o Herrera começou a jogar. Um buraco negro, uma região do espaço da qual nem a luz pode escapar. Mesmo ali, no meio campo do FêCêPê. O colapso gravitacional de uma estrela, a deformação do espaço-tempo. O Herrera.

O Herrera move-se com a elegância de uma turista inglesa às 3h30 da manhã no Bairro Alto, finta com a magia de um saloio, na feira de Marinhais, montado num carrinho de choque depois de 3 farturas e 19 traçadinhos e passa o esférico (obrigado Gabriel) com a precisão de um bombardeamento norte-americano.

As fintas do Héctor têm a imprevisibilidade do estado da mata portuguesa entre julho e outubro de um qualquer ano civil e os remates, a eficácia de um prospecto de comida vegan junto do Fernando Mendes. Uma recepção de bola é um lançamento de linha lateral para o adversário e uma desmarcação do artista, ocorre com a mesma frequência das visitas do cometa Haley.

– O Herrera tem dias, pá.

Não. A tua prima é que tem dias.

O Herrera marca golos.

Eu gosto imenso de jogar aos dardos. Acontece que sou seriamente míope. Mas volta e meia – que é como quem diz à 67.ª tentativa – acerto na mouche.

– Ah mas o Herrera recupera imensas bolas.

As bolas que o Herrera recupera vão inevitavelmente parar ao adversário tendo, por isso, a mesma utilidade de um preservativo nas mãos do Roberto Carneiro.

– E o que ele corre?

É. O Herrera corre muito. Acontece que não trabalhando o Herrera nos CTT – com o jeitaço que dava aos CTT nos tempos que correm um corredor destes – a correria serve de pouco. Porque reparem, o Herrera corre porque dominou mal uma bola ou porque a passou ao adversário e aí, não resta outra ao pobre Herrera que correr. Correr como se não houvesse amanhã anunciando, “vem aí merda pessoal”.

– Que garra.

Claro. É verdade que o Herrera tem mais garra que uma Joana Vasconcelos num all can you eat de bolas de Berlim.

Quem também tinha imensa garra era o sr. José. O sr. José era o electricista lá de casa. O sr. José nunca jogou à bola num clube profissional. Mas bem vistas as coisas, podia.

 

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