Ao marcar viagem para Barcelona em Julho, fi-lo como boa cosmopolita europeia: o quê, um feriado? Maravilha. Zarpe-se para um fim-de-semana grande em cidade estrangeira, cortesia de uma qualquer low cost. Não me passava pela cabeça outra coisa que desfilar alegremente pelas Ramblas, parar ocasionalmente para tapas e afundar-me em taças de cava.

De rompante, as notícias começaram a anunciar o reacender do movimento separatista com a convocatória para o referendo de 1 de Outubro, de forma no mínimo alarmista. Puigdemont e compinchas provocaram-no, é certo, e os media, claro, reverberaram. Nós por cá, digo eu, sentimo-lo como o pico de um shot de café: notícias que se seguiam minuto após minuto acabaram por se esvair inevitavelmente no aborrecimento de sempre – até que chegue o próximo.

Os avanços e recuos do parlamento regional catalão vistos desde o início desta empreitada davam um bom prenúncio de fogacho que não há-de chegar a fogo de artifício. É que num olhar transversal pelos acontecimentos parece que o senhor Puigdemont não sabia bem o que estava a fazer a não ser no momento em que decidiu fintar as grades. Mexam-lhe com os ideais, equipa, povo, não lhe mexam é no cabelo.

Na minha ignorância confesso: ainda que a região possa desejar a independência em maioria – e isso é cada vez mais incerto – parece-me que convém não ignorar a constituição e o país onde se vêm inserindo há uns largos anos. Não sei, parece-me que o precedente para um referendo e declaração feitos marginalmente é, também, um precedente para o caos.

Multiplicaram-se as notícias de confrontos e nisso o nosso Correio da Manhã nunca nos deixa sedentos de sangue e lágrimas, publicando não um, nem dois, mas um compêndio dos vídeos de tensão na Catalunha. Ainda me tentaram fazer crer que era melhor não ir. Sim, o turismo em Barcelona estava a ir com os porcos e o mundo estava de olhos postos na região, mas parece-me que é muito fácil uma pessoa assustar-se sentada no sofá, e não é que Barcelona estivesse propriamente em estado Crimeia.

Foi, assim, de forma perfeitamente acidental, que lá cheguei na sexta-feira, dia 27 de Outubro, o dia da declaração unilateral da independência pelo parlamento regional da Catalunha. Sabia-se que Madrid já tinha anulado a decisão e pairava no ar a incerteza sobre o que se ia passar de seguida. Ainda no aeroporto nos avisaram que talvez houvesse perturbações no domingo por conta da manifestação a favor de uma Catalunha espanhola.

Pelas janelas e varandas da cidade pendiam bandeiras que se multiplicavam por onde quer que se andasse. Bandeiras da Catalunha, bandeiras de Espanha, bandeiras da Catalunha e de Espanha, bandeiras de Espanha e da União Europeia, bandeiras da Catalunha e de “Sí”. Bandeiras estranhas que pediam a salvação da União Europeia através de apoio à Catalunha.

Pessoas em Barcelona. Casal com bandeira catalã aos ombros.

Foto tirada pel’A Raia Miúda como peixe fora de água

A vida parecia correr normalmente pelas ruas, sem que se notasse aceleração ou o contrário. As pessoas caminhavam sorridentes pela manhã, conversavam no café, passeavam o seu cão, liam tranquilamente, iam para o trabalho. Ocasionalmente, ainda assim, percebia-se que o assunto surgia aqui e acolá. Debatia-se pelos cantos, lia-se nos jornais, estendia-se nas fachadas. Dizia-se que se as facções separatistas quisessem poderiam juntar facilmente uma manifestação de milhões, mas naquele dia vi apenas demonstrações isoladas. Um casal com a bandeira catalã aos ombros, um desfile pelas Ramblas de apoiantes da independência, um senhor que alisava com cuidado a bandeira catalã entre as suas floreiras.

No domingo, o caso foi outro. Olhasse para esquerda ou direita a bandeira espanhola estava por todo o lado no centro de Barcelona. De todos os tamanhos e feitios era vestida, levantada por pessoas de todas as idades, famílias, amigos que caminhavam para a manifestação. Não sei, e tão pouco me interessa, que fossem mais mil ou menos mil, mais ou menos do que o movimento pró-independência. Sei que naquele domingo e por conta de uma opinião, da liberdade em discuti-la, muita gente se levantou cedo e adiou o almoço, o conforto e o sossego, a missa e aquelas desculpas que sabemos para a preguiça.

E vê-lo, independentemente da representação social e política dessa manifestação, ou do que ainda possa vir a acontecer no dia 21 de Dezembro, foi para mim como o deslumbramento de um grandessíssimo monumento.

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