Leonard Cohen morreu há um ano e ainda tenho um sobressalto quando alguém diz o nome dele. Há um ano que ando sobressaltada.

Acontece-me muito quando morrem estes gajos e gajas que sempre me acompanharam. “Eu não autorizei essa morte, não estou a perceber o que querem dizer com isso e não apoio essa decisão”, é o que me passa pela cabeça quando penso nele, ou no Pina, no Bowie, na Riva, naqueles todos de que agora não me recordo e ainda bem.

Songs of Leonard Cohen, Songs of Love and Hate, I’m Your Man, Various Positions, New Skin For The Old Ceremony, Old Ideas, You Want it Darker. Eu e o meu Leonard tivemos uma relação cheia de saltos, com algumas omissões, mas aquela que nos foi possível. Nunca mais consegui viver de outra forma que não fosse numa música dele.

Suzanne e o chá e as laranjas vindos lá de longe, da China, e todas as minhas amigas sensatas e suaves que me enternecem por serem tão raparigas. Ou então os meus amigos que não percebem que não é assim que se diz adeus e por isso nunca mais vão aprender nada na vida.

A minha amiga mais antiga a cantar-me I’m Your Man e as duas a termos uma vida de sexo, drogas e rock ‘n’ roll, devidamente abençoadas pelo nosso Leonard Cohen (mais meu do que dela, vamos lá a ver). O meu primeiro namorado, tão rapaz e tão menino a cantar I’m Your Man e oferecer-me os bilhetes para o concerto de 2009, onde o Pavilhão Atlântico, que é um sítio feio e deprimente, se fez luminoso pela presença do meu homem.

Uma vida inteira shouldering my loneliness em tão boa companhia e depois o gajo vai e morre assim de repente e ficamos todos órfãos. Não há mais Leonard Cohen, não respira, não se mexe, tudo o que tinha por dizer não o vamos nós adivinhar.

Everybody knows the war is over, everybody knows the good guys lost. Há um ano passei uma semana inteira a acordar com isto na cabeça e a achar que o mundo não tinha remédio. Entretanto o Trump foi eleito, houve não sei quantos atentados, não sei quantas guerras, a injustiça não se extinguiu (ao contrário do rinoceronte branco, que qualquer dia já era) e continuamos todos a ser uma merda de pessoas, amigos. Convenci-me que estava tudo relacionado.

Depois lembrei-me de uma coisa que o meu Leonard Cohen me sussurrou uma vez, já a adivinhar que ia precisar dele: Yes, I might go to sleep, but kindly leave, leave the future, leave it open.

Pode parecer pouco, mas acalma todas as noites passadas em sobressalto. Ou todos os dias que às nove da manhã já se parecem com um campo de batalha. Não é muito, mas à falta do homem, o meu homem, por favor, é a segunda melhor coisa e como as coisas estão hoje em dia uma gaja não pode ser esquisita.

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